ESSA TERRA

NOVEMBRO  |  2017

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 05  .  edição 44
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Essa Terra

A estrada segue mais ou menos em linha reta  —  e em sentido ascendente, sempre ascendente.

Os já consideráveis 2.400 metros de altitude em San Pedro de Atacama iam ficando para trás no retrovisor e, naquela manhã ensolarada e fria de inverno, Andrew  —  expatriado sul-africano com quase duas décadas de América Latina  —  explicava-nos os procedimentos que seriam necessários ao chegarmos à fronteira com a Bolívia. De seu assento no banco da frente, falava de uma dança imigratória tão burocrática quanto o subdesenvolvimento pode produzir, e detinha apenas uma fração de minha atenção.

Lá fora, a paisagem do deserto rapidamente dava lugar à vegetação rasteira de grandes altitudes, e a proximidade do vulcão Licancabur apontava para o posto de aduana Apacheta – Hito Cajones. Em minha mão, o aplicativo no celular marcava a subida: 4.000, 4.050, 4.200  —  ao saltar do carro na fronteira, a altitude era de 4.500 metros acima do nível do mar.

Não sentia náusea ou indisposição. Se a cabeça estava leve, era de encantamento com tão linda paisagem. De outro mundo, diriam alguns. Aqui dessa terra mesmo, reflito eu. Se nos distanciamos tanto de nosso planeta a ponto de achar alienígena alguns de seus panoramas, talvez estejamos passando demasiado tempo entre quatro paredes  —  e, ao darmos uma escapada, preferindo o que antanho se chamava de circuito Elizabeth Arden.

Se os olhos da Elizabeth Arden, meu bem, o que a Helena Rubinstein com isso?

É, talvez a tal da porta vermelha nunca tenha sido nossa praia mesmo. A verdade é que o que Turibio e eu vimos ao longo daquela semana, de Licancabur a Uyuni, foi uma abertura incrível para a beleza de nossa esfera azul.

Ao deixar para trás o posto aduaneiro, a estrada vira em direção ao norte  —  já na Reserva Nacional de Fauna Andina Eduardo Abaroa  —, atravessando o altiplano boliviano. As lagoas da região são conhecidas pelas suas cores vívidas — decorrentes da quantidade de minerais em suspensão —, e a primeira é a Laguna Blanca, seguida pela Laguna Verde. Quarenta quilômetros acima, as Termas de Polques. Mais adiante, os gêiseres de Sol da Mañana  —  a mais elevada altitude na rota, 5.100 metros.

Se descrever qualquer desses lugares já não seria fácil, nada prepara alguém para a falta de palavras que enseja a chegada à Laguna Colorada  —  uma maravilha natural, lar para milhares e milhares de flamingos.

A viagem segue entre vales e rochas esculpidas pelo vento, até desembocar no Salar de Uyuni, o maior deserto de sal do mundo. Chegamos lá ao entardecer e, em pouco tempo, a lua cheia apareceu. A noite era uma criança distraída.

Corta. O Céu Que Nos Protege, romance de Paul Bowles, é um de meus livros favoritos. Em uma passagem, seus personagens principais, Port e Kit, passeiam de bicicleta por uma estrada erma no Marrocos, e param para descansar no topo de uma colina.

—  Sabe, eu sinto saudades de momentos assim  …  de lugares assim  …  mais do que qualquer outra coisa na vida.

—  É verdade, eu sei que você sente.

—  É isso aqui que eu queria te mostrar. Esse lugar. Aqui  …  o céu é tão estranho, é quase sólido. Como se nos protegesse do que está por trás.

O que está por trás é assunto para muitas e muitas páginas, e certamente não caberia aqui. Mas sim, sinto saudades de momentos assim. De lugares assim. Dos que conheço e dos que ainda vou conhecer. Amo essa Terra. Quantas luas cheias temos afinal, cada um de nós, em nossas vidas? Quero estar o maior número possível delas protegido, a céu aberto.

                                    

                       

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