A CASA

SETEMBRO  |  2018

 


 

  •  artigo publicado na revista CASA COR  —  2018
  •  acesse o artigo abaixo ou baixe o arquivo em formato PDF

 

A Casa

Era para escrever uma história. E talvez eu até o faça. Mas que diferença faria se eu a contasse? Tous les matins du monde sont sans retour, como no romance de Pascal Quignard. Todas as manhãs do mundo são sem volta, como essa manhã.

E essa manhã, no avião, havia um garotinho no assento à minha frente. De joelhos, olhava através da janela. Que sentido faziam do que viam os seus cerca de três anos? Pela fresta entre as poltronas, voltou-se e sorriu para mim. Tive que engolir em seco  ?  pois quase cinquenta anos atrás fiz eu a mesma coisa. Só que do assento dele. E ainda lembro. Les années étaient passées.

Os anos passaram. Houve ele, o menino sertanejo que, no início do século passado, teve a infância marcada pelo assassinato do pai, acontecido ao alcance do ouvido no terraço da própria casa em que morava. Noite adentro, fugindo com a mãe e com os irmãos pelos confins do interior pernambucano, iniciou a história que hoje continua com a sua visita a essa casa, à CASACOR. Após alguns anos de extrema dificuldade, jurou que seria alguém na vida, e que jamais passaria necessidade novamente. Algo em mim quer ver traços de Scarlett O’hara nessa afirmação  ?  afinal, vindo de mim, esperar o que? Mas a verdade foi bem diferente. E, a bem da verdade, aquele menino  ?  o meu avô  ?  passou por essas circunstâncias algumas décadas antes do filme.

Houve ela, a moça com que se casou, a alma vestal se algum dia houve uma. Terna, dedicada, companheira  ?  por anos, por décadas, por uma vida. Ela, sobre quem ainda estou por conhecer alguém que tenha palavras menos que carinhosas para falar de sua memória. Ela, a minha avó, cuja única indulgência a que se permitia talvez tenha sido a pimenta com que acompanhava as suas refeições diariamente. Coisa do inferno. Uma colher de sopa da pimenta de vovó certamente mataria todos os netos e metade do bairro de Casa Forte.

Houve a primogênita do casal  ?  angelical como a mãe, primeira entre os filhos a morar na casa da Avenida 17 de Agosto, e última de nossa família a deixá-la como residente. E há, claro, a casa. Afinal, era para ser ela o assunto, não era? Pois bem. A jovem família Santos se mudou para lá pouco antes de meu pai nascer. Grávida de planos, olhos cristalinos e expectantes, em nada diferente de qualquer outra família que adquire a primeira casa própria. Até então, moravam de aluguel na Cruz Cabugá. Ao adquirir a propriedade na 17 de Agosto, contrataram o arquiteto Aldiphas de Barros  ?  o Carlos Augusto Lyra de então  ?  para reformar a pequena construção que havia no local, resultando basicamente no imóvel que você visita hoje. Reformado na década de 90 pelo próprio Carlos Augusto, que se diga.

Era para contar uma história. Mas do enredo já não sabemos tudo? E poucas coisas são tão mornas quanto uma história recontada. Chá não se faz com água tépida, já se disse. A água deve ser quente. E a vida acontece no calor do momento.

Sim, houve outros filhos. Três meninos, três meninas. Sim, o casal prosperou, ele em um Brasil de oportunidades, ela, pedra de toque de uma família nordestina. Sim, houve batizado, escola, primeira comunhão, aniversário, crisma e maior idade. Carnaval, São João e Natal. Houve fábrica e escritório, houve devoção e obrigação, além de transgressão. Houve choro, houve dificuldade, houve tensão, mas nada que muito dure, porque coisa alguma jamais o faz. Houve namoro, banco de trás, noites brancas, brigas, reconciliações, noivados e casamentos. Até que houve nós, os netos. E isso há já algum tempo, porque alguns de nós, netos, hoje netos temos.

Era para falar da casa. Se conto detalhes, meu avô odiaria. Poucas pessoas conheci que tivessem tamanha aversão a falar de si próprias. Gostava de uma história bem contada, mas nunca a dele. Vovô é a antítese dos tempos atuais, da cultura do eu. O resultado de seu trabalho era o que importava, não o que pensava, muito menos o que sentia. O conceito de tirar uma selfie para ele seria provavelmente uma aberração, pois o que seria o self sem o feito? E quem geralmente faz não tem tempo para falar do self, pois está ocupado cuidando para que mais seja feito.

A noção de casa é universal. Detalhes, ao cabo, são redundantes. A sensação de se planejar, programar, construir e de se mudar para um novo lar é a mesma para todas as famílias  ?  a minha, a sua, a dos outros. É bom, pode ser sublime. Se é isso que você faz aqui, se é em nossa casa que através da CASACOR você procura a sua própria, aproveite. Essa é a melhor parte. A parte em que planejamos, programamos, construímos e nos mudamos para o nosso lar. É aí que a água está quente. Pode servir o chá.

Falando em casa, papai nasceu na residência da 17 de agosto. Não houve tempo para minha avó se deslocar até a maternidade, e uma parteira foi convocada. Terceiro filho do casal, o primeiro a nascer após a mudança para o novo endereço. Ganhou o nome de seu avô. Que, aliás, é o meu nome. O mesmo do senhor que um dia tombou no terraço de sua casa no sertão pernambucano. Cem anos de solidão e mais alguma coisa que ouvi dizer. Será mesmo?

O capitão pediu que colocássemos os assentos de nossas poltronas na posição vertical e que apertássemos os cintos de segurança. O menino à minha frente se voltou mais uma vez, sorriu, e acenou. I had some dreams, they were clouds in my coffee. Clouds in my coffee.       

                                                          

                       

+ ARTIGOS