15  .  SETEMBRO  .  2019

A Sala de Sonhar  —   nossa criação para a CASA COR 2019  —   conta com uma obra inédita de J. Borges, um dos artistas populares mais prestigiados da América Latina.

Algumas semanas atrás, Turibio e Zezinho visitaram o artista em seu atelier de Bezerros, agreste pernambucano. Da longa conversa  —   assim como gosta o mestre, um amante da boa prosa   —  nasce a ideia para o painel na CASA COR.  

obra de J. Borges para a <em>Sala de Sonhar</em> na CASA COR Pernambuco 2019

A obra   —   desenvolvida especialmente para a mostra e em grandes dimensões, 4.5 x 2.5 metros  —, associa o tema do ambiente aos aspectos oníricos do trabalho do artista, por vezes salpicado com criaturas fantásticas do imaginário regional, como a mula sem cabeça, ou personagens famosas de folhetos de cordel, como o Pavão Misterioso. 

Ao cair do sol no sertão, abrem-se as portas para o universo mágico e envolvente de J. Borges. Dá-se partida ao sonho.

Acompanhe aqui e saiba mais sobre a CASA COR.   

obra de J. Borges para a <em>Sala de Sonhar</em> na CASA COR Pernambuco 2019

J. Borges

José Francisco Borges  —  J. Borges  —  é um dos artistas populares mais celebrados da América Latina e o xilogravador brasileiro mais reconhecido no mundo.

Artista popular, xilogravador e poeta  —  nascido em Bezerros, no agreste Pernambucano, em 1935, de pais agricultores  —  Borges frequenta a escola por apenas dez meses, aos 12 anos. Ainda na infância, começa a trabalhar na roça, e negociava em feiras locais vendendo colheres de pau que ele mesmo fabricava. Até a adolescência, realiza diversas atividades: marceneiro, mascate, pintor de parede, oleiro etc. Em 1956, compra um lote de folhetos de cordel e começa a atuar como vendedor em feiras populares  —  e o gosto pela poesia o faz encontrar naqueles folhetos o substituto para os livros escolares.

Em 1964, escreve seu primeiro cordel, O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina, que é ilustrado pelo artista Dila, de Caruaru, e publicado pelo folheteiro Antonio Ferreira da Silva, que acompanhava J. Borges nas feiras do interior. O folheto é um sucesso e vende cinco mil exemplares em apenas dois meses.

Animado com o resultado, na segunda publicação  —  O Verdadeiro Aviso de Frei Damião sobre os Castigos que Vêm  —  o jovem artista não encontra um clichê para a ilustração da capa e, por economia, produz sua primeira xilogravura, inspirada na fachada da igreja de Bezerros. Com esse trabalho, tem início sua carreira como xilogravador. Em pouco tempo, adquire máquinas tipográficas e passa a editar folhetos.

Autodidata, J. Borges desenha direto na madeira e muitas vezes as imagens são feitas de memória. O fundo da matriz é talhado ao redor da figura que recebe aplicação de tinta, tendo como resultado um fundo branco e a imagem impressa em cor.

A partir de 1970, começa a receber diversas encomendas de gravuras, o que fortalece sua obra e estimula a autonomia de suas imagens em relação ao cordel  —  estes, que se diga, mais de 200 pulicados ao longo da vida.

J. Borges continua escrevendo e produzindo cordéis por vinte anos e cria a gráfica Casa de Cultura Serra Negra, em Bezerros, na qual ensina o ofício a seus filhos. A xilogravura lhe dá projeção nacional e internacional: ele ilustra livros, como o Palavras Andantes, do escritor uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015), lançado pela LP&M em 1993; participa de diversas exposições; e ministra oficinas e workshops sobre cordel e xilogravura. A partir da década de 1980, seu trabalho recebe prêmios que atestam a importância de sua contribuição como artista popular. Entre eles, o prêmio de gravura Manoel Mendive, na 5ª Bienal Internacional Salvador Valero Trujillo, Venezuela, em 1995; medalha de honra ao mérito da Fundação Joaquim Nabuco, Recife, em 1990; medalha de honra ao mérito cultural, do Palácio do Planalto, Brasília, em 1999; e o Prêmio Unesco, em 2000. Em 2002, foi um dos artistas escolhidos para ilustrar o calendário anual das Nações Unidas, e quatro anos mais tarde, tema de reportagem no New York Times. Ainda em 2006, J. Borges passa a receber bolsa vitalícia concedida com a Lei do Registro do Patrimônio Vivo e é criado o Memorial J. Borges, em Bezerros, que assume as funções de ateliê, oficina e galeria.

Os principais temas de sua obra podem ser separados em quatro grupos. O primeiro diz respeito às personagens fantásticas do imaginário regional, como a mula sem cabeça. No segundo grupo, encontram-se personagens famosas de folhetos de cordel, como o Pavão Misterioso. No terceiro estão personagens e temas emblemáticos da cultura nordestina: Lampião, Padre Cícero, a seca, a festa de São João etc. E, por fim, o quarto grupo apresenta temas do cotidiano, como os bares, as brigas de galo, as cerimônias ecumênicas e a política.

J. Borges continua trabalhando, ao lado dos filhos, em seu atelier em Bezerros, onde máquinas tipográficas dividem espaço com centenas de matrizes, gravuras e folhetos de cordel. Suas xilos são impressas em grande quantidade e diversas dimensões, e vendidas a um variado público que abrange artistas, intelectuais e colecionadores de arte.


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