WALTER MITTY

dezembro  |  2015

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 04  .  edição 37
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Walter Mitty

To see the world, things dangerous to come to, to see behind walls, draw closer, to find each other, and to feel. That is the purpose of life.

Estava em casa.

Em uma noite de final de semana no início do ano, assistia televisão. Era cedo, mas Turíbio já havia ido dormir. Na gaveta, encontrei o blu-ray de A Vida Secreta de Walter Mitty. Havia comprado umas semanas antes, mas até então não tinha tido tempo para assistir. Sem muitas expectativas, coloquei no aparelho. Não sou particularmente fã de Ben Stiller  —  que estrela e dirige o filme  —, nem havia lido qualquer coisa que recomendasse a película. Ainda assim, play.

O filme é lindo, lindo, lindo.

A Vida Secreta de Walter Mitty é baseado em um conto original de James Thurber, publicado pela primeira vez na edição de 18 de março de 1939 da revista The New Yorker. Em 1947, a obra ganhou uma versão para o cinema estrelada por Danny Kaye e Virginia Mayo  —  e uma tradução esdrúxula em português, O Homem de 8 Vidas. Mas pode esquecer ambas as coisas, o conto e a versão de 47. No máximo, acesse o conto no site da New Yorker.

A versão de Stiller, de 2013, é singular. E formidável. É quase uma obra à parte das que lhe deram origem. O conto de Thurber apresenta, em seus meros treze parágrafos, a estória de Walter Mitty  —  um sujeito comum que, para fugir de sua realidade medíocre, sonha acordado com grandes romances, atos de heroísmo e aventuras. Essas linhas gerais para o personagem principal são, todavia, tudo que o roteiro para o filme de Stiller aproveita do original. Na nova versão, Walter Mitty é funcionário do departamento de fotografia da lendária Life, revista de fotojornalismo editada nos Estados Unidos entre 1936 e 2007. Responsável pela guarda, processamento e manutenção dos negativos, Walter tem que encontrar um fotograma extraviado  —  exatamente aquele que será usado na capa da edição final da revista. E, para isso, precisa achar o paradeiro de um famoso fotógrafo, aquele que fez a imagem, interpretado por Sean Penn.

O magnífico elenco  —  que inclui ainda Kristen Wiig e Adam Scott, além de Shirley MacLaine no papel da mãe de Mitty  —, ao longo de um sublime roteiro e embalado por uma trilha sonora perfeita, faz de A Vida Secreta de Walter Mitty um filme simplesmente emocionante. Se você não assistiu, melhor assistir já.

Mas ainda tem mais  —  a fotografia e as locações são algo à parte, quase um personagem principal. A estória se passa, além de Nova York  —  sede da revista Life  —, na Groenlândia, Islândia e Afeganistão. Tive a curiosidade de ler os créditos finais e, no entanto, lá estava: o que não é filmado em Nova York foi rodado na Islândia, que faz o papel também de Groenlândia e Afeganistão. E as paisagens são  …  Bem, assista ao filme.

É na estrada que somos melhores  —  Turibio e eu adoramos viajar, e vivemos e trabalhamos para isso. A Islândia, todavia, nunca havia entrado em nossa lista de lugares para visitar. Não até Walter Mitty. Aquele filme, e aquele filme sozinho, fez a ilhota no Círculo Polar ir lá para o topo de nossa relação. O que não sabíamos é que aconteceria tão cedo.

Havíamos combinado com duas queridas amigas americanas  —  que, aliás, conhecemos uns anos atrás no Egito  —, de passar o aniversário de Turíbio com elas na Suíça. No início de junho, todavia, pouco mais que uma semana antes de embarcarmos, elas tiveram que cancelar, por motivos de saúde. Turíbio e eu ficamos com duas passagens para Zurique e vontade nenhuma de estar lá sem elas. Lembrei da Islândia. Em poucas horas, havia pesquisado hotéis, locais para visitar e passagens aéreas a partir da Suíça, e estávamos com tudo planejado.

Fico pensando no hábito atual de ver a vida por trás da camêra do celular, por trás de uma tela. Grande parte das pessoas parece sentir necessidade de a tudo fotografar, de a tudo filmar  —  algumas, de a tudo compartilhar. Não que não se possa  —  e não se deva  —  tirar algumas fotos. Mas a vida é tão, tão maior que o visor do celular. Faça o teste. Assista ao nascer do sol através da tela de seu aparelho, filme tudo. No dia seguinte, levante para ver o sol raiar, mas deixe o celular na gaveta.

A Islândia é muito, muito maior, melhor e mais bonita que em qualquer cena de Walter Mitty. Aquele lugar não cabe em tela alguma. E, se em janeiro sequer cogitávamos visitá-lo, hoje é um país para o qual queremos voltar diversas vezes. Mas  …  a lista é longa, e quem sabe o que vai ser amanhã? Uma praia ali em Alagoas, as cidades mineiras, Noronha, a Costa Rica, Amsterdã, Timbuktu  …

Ver o mundo, do perigo se aproximar, enxergar além das paredes, chegar próximo, encontrar um ao outro, e sentir. Esse é o propósito da vida.    

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