UM DIA PERFEITO

janeiro  |  2007


 

  •  crônica publicada na revista Club    ano 07  .  número 52
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Um Dia Perfeito

A gente sabe assim que acorda: quando um dia vai ser perfeito, ele se anuncia. E aquele foi um dia perfeito.

Manhã de domingo em São Paulo, quatorze graus centígrados, céu encoberto. Tudo cinza, e aquela luz peculiar, como se alguém houvesse posicionado um enorme difusor sobre a cidade. Para mim, para quem sol e calor são coisas interessantes apenas no canal da National Geographic, e ainda assim com o ar condicionado no máximo, a manhã como epítome da perfeição meteorológica. Quando saltamos do carro na rua lateral ao Mercado da Cantareira, meu ipod imaginário tocava Perfect Day, de Lou Reed: just a perfect day / problems all left alone / weekenders on our own / it’s such fun

Sentamos, Turíbio e eu, a uma pequena mesa, no mezanino do mercado, por sobre todo o alvoroço lá embaixo. Expressos e sanduíches à frente, éramos dois entre tantos, tanta gente em todos os lados, tantos cheiros, tantas vozes. Mal reconhecia o local, amplamente restaurado, reluzente na luz difusa, tão cheio de vida, tão cheio do novo de sempre. Oh it’s such a perfect day / I’m glad I spent it with you

Daquele senhor, a primeira coisa que vi foram os pés, delicadamente cruzados um sobre o outro. Levantei os olhos, para ver o cós de uma calça desconcertantemente fashion, da qual pendia um chaveiro estranhamente feminino. Levei o olhar para as mãos, delicadas, tratadas, e que gesticulavam languidamente, pontuando uma fala macia. Com seus sessenta e tantos anos, o senhor, sentado à mesa a nossa frente, tomava café com a família: a esposa, meio apática, um filho, inexpressivo em seus trinta e poucos, uma nora, atarefada demais com a comida para se importar, e duas netas, alegres em sua inocência. Ou pelo menos foi essa a configuração familiar que apreendi das feições, e da maneira com que tratavam uns aos outros. Voltei novamente meu olhar para o senhor, que agora nos olhava com perplexidade. Meu olhar cruzou com o seu. O reconhecimento entre iguais é imediato, mas invisível aos olhos de uma família que não quer ver. Ou que não se dá ao trabalho. Just a perfect a day / you’re going to reap just what you sow… Você vai colher o que plantou.

Terminamos nosso café, e descemos para o mercado. Todas as manhãs do mundo são sem volta. Pinholes, pimenta de cheiro, tomates secos, fundos de alcachofra. Parte para nós, parte para nossa querida amiga Madá. A última vez em que estivemos lá, aliás, ela estava conosco, querida que é. Com nossas pequenas sacolas, tomamos o carro rumo ao MASP. Mais estandes para explorar, desta vez contendo pedacinhos, lembranças, cacos de outras épocas, de outras pessoas, de outros lugares. Início de tarde, mas ainda quatorze graus no termômetro da Paulista: a glória. Um calafrio percorreu minha espinha, embora de uma natureza totalmente diferente: espalhados sobre o tabuleiro a minha frente, carrinhos de ferro exatamente iguais aos que eu tinha algumas décadas atrás, quase ali, quase ontem. Tous les matins du monde c’est sans retour. Mais à frente, compramos um peso de papel, e mais um cinzeiro em acrílico, de dois senhores muito distintos, e muito bem casados. Um com o outro.

À frente, e seguimos para o MUBE, onde outra feirinha de antiguidades nos aguardava. E depois para o Instituto Tomie Ohtake, onde uma considerável quantidade de preciosidades modernas é guardada. Just a perfect day / drink sangria in the park… E então, um filme, no Iguatemi, seguido por um jantar, no início da noite, naquele nosso preferido e pequeno restaurante. Then later, a movie, too / and then home… Foi um dia perfeito, e fico feliz que o tenhamos passado juntos.

Passar um dia assim com a pessoa que se ama é algo que a ninguém devia ser negado, em qualquer hipótese ou sob qualquer argumento. Nenhuma pessoa – parente, amiga, conhecida ou estranha – tem o direito de nos negar um dia como esse. Nenhum conceito, preconceito, idéia, dogma ou doutrina. Nenhuma autoridade, nenhum político, nenhuma lei. Nenhum papa, nenhum mulá, nenhum rabino, nenhum pastor. Nenhuma religião, fé ou crença. Simplesmente porque a vida é maior que qualquer um deles, por mais que queiram negar, por mais que não queiram ver.

Ao deitar, já em casa, lembrei do senhor no mezanino do mercado, naquela manhã. Terá tido ele o seu dia perfeito? Seu olhar me diz que não. Você vai colher o que plantou.

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