TODO MUNDO VAI AO CIRCO

abril  |  2008


 

 

  •  artigo publicado na revista Class Casa  —  ano 03  .  número 11
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Todo Mundo Vai ao Circo

É mais do mesmo, é mais do mes­mo … Ele se repete, ele se repete … Muda uma curvinha aqui, outra lá, mas é sempre a mesma coisa”. Na Via Manzo­ni, em Milão, em visita ao showroom da Driade  —  uma das mais importantes fá­bricas italianas de móveis e acessórios  —, um casal de paulistas trocava impressões sobre uma das mais recentes criações de Philippe Starck, a linha Monseigneur, que compreende um sofá, uma poltrona, uma chaise-longue e um pufe.

Talvez exatamente por não perceber a diferença que uma curvinha faz  —  e as sutilezas que fazem o bom design  —  é que aquele casal de paulistas em Milão era perfeitamente anônimo, enquanto Starck é Starck  —  um nome familiar na maioria das casas atuais, mesmo entre aquelas pessoas que pouco contato têm com o mundo da arquitetura e do design contemporâneos. A linha Monseigneur, desenvolvida pelo arquiteto e designer francês para a Driade, é mais uma de suas elegantes criações, e está longe de ser mais do mesmo. Exibida pela primeira vez durante a edição desse ano do Salão do Móvel de Milão, estava entre as várias novidades apresentadas no evento, con­ferido de perto pela nossa equipe.

A nossa primeira parada é a Feira pro­priamente dita. O Salão do Móvel ocupa anualmente os pavilhões da gigantesca Fiera Milano, um magnífico complexo de exposições plantado no subúrbio da cida­de. Apenas para se ter uma idéia, o Cen­tro de Convenções, em Olinda, dispõe de 20.000 m² de área para eventos, aos quais se somam os 2.300 m² do mezanino. Na Fiera Milano, a área para exposições é de 345.000 m², distribuídos em oito gran­des pavilhões, além de mais 60.000 m² para mostras ao ar livre. As instalações são excelentes, e a tecnologia, de ponta. Há vagas para 14.000 automóveis, além de conexão direta com uma das linhas de metrô de Milão, que leva o visitante di­reto ao coração do complexo. Por lá são realizados, ao longo do ano, exibições de todo o tipo, para quase todos os ramos de atividade imagináveis.

A cada ano, com cada nova edição do Salão do Móvel, fica mais clara a impor­tância do bom design para os fabricantes e comerciantes de móveis e acessórios. E bom design se consegue com pessoas criativas, antenadas, sensíveis e inteligen­tes. Nomes de peso no cenário interna­cional, que estudaram e trabalharam ar­duamente para chegar aonde chegaram. Em Milão, esse ano, era evidente o reco­nhecimento por parte dos fabricantes a esses nomes. Se, em edições da década passada, os produtos eram apresentados tendo o nome de seus criadores apenas como nota de rodapé, em anos recentes os designers responsáveis pelos produtos são colocados cada vez mais em evidên­cia. Seus nomes aparecem em grandes letreiros, chamarizes para um público cada vez mais atento às mentes por trás dos traços. Fala-se aqui de nomes como Frank Gehry, Zaha Hadid e Ron Arad, grandes nomes da arquitetura que dei­xam também a sua marca em peças de design. De Jurgen Bey, Hella Jongerius e Marcel Wanders, todos saídos da coleti­va holandesa Droog Design. Dos irmãos Ronan e Erwan Bouroullec e Fernando e Hurmberto Campana  —  estes últimos, os únicos nomes brasileiros realmente inse­ridos no cenário do design internacional. De Naoto Fukasawa e de Tokujin Yoshio­ka, ambos japoneses. Do inglês Jasper Morrison e da espanhola Patricia Urquio­la, lado a lado a gente da nova geração, como o também espanhol Jaime Hayon. Sem falar no quase impronunciável ale­mão Konstantin Grcic. Vindas dos quatro cantos do planeta, anualmente encon­tram-se em Milão as cabeças pensantes da arquitetura e do design.

Se o ubíquo Philippe Starck viu o seu nome ser consolidado no cenário internacional nos anos 90, Patricia Urquiola  —  uma es­panhola nascida em Oviedo e radicada na Itália  —  faz a mesma coisa na presente década. A designer parece estar em todo lugar, com criações para a maioria dos melhores produtores mundiais. E, entre as muitas peças apresentadas por Urquio­la esse ano em Milão, a linha Bohemian, para a Moroso, é uma das mais deliciosas  —  tanto para o olhar quanto para o tato. À primeira vista, a chaise-longue da linha Bohemian parece uma peça convencio­nal, até mesmo antiquada. Mas o apuro do traço de Urquiola, aliado à tecnologia de ponta empregada na fabricação e aos excelentes materiais de acabamento, faz da chaise um convite ao ócio despudora­do. Que, se depender da designer, deve ter continuidade no jardim: para a B&B Italia, a espanhola desenhou a instigante linha Canasta, composta por uma série de móveis para áreas externas. Isso sem falar nas brilhantes criações para a De Padova, as mesas da linha Mantis  —  que, apoia­das em um suporte de alumínio, podem chegar a assombrosos sete metros de comprimento  —  e as graciosas cadeiras Lavenham.

As novidades lançadas no Salão do Móvel de Milão  —  móveis, luminárias e acessórios  —  são, certamente, as estrelas do evento. Muitas vezes, todavia, não são percebidas pelos visitantes em todos os seus detalhes e sutilezas. Os estandes em que são apre­sentadas, então, passam quase sempre batidos. Poucos são os brasileiros, entre os que visitam a feira, que os comentam. Mas o fato é que esses espaços são um show à parte. A riqueza de detalhes, pro­porções e materiais fazem dos estandes uma aula em arquitetura comercial.

A criatividade, o esmero e o apuro técni­co empregados em seus projetos são de magnitude tal como poucas vezes é vista em espaços comerciais em nosso país  —  espaços esses, diga-se, permanentes, en­quanto em Milão os estandes são feitos para durar apenas os seis dias em que a Feira acontece. Esse ano, a onda verde  —  no clima de “salvem o planeta”  —  pa­rece ter influenciado a criação de muitos deles. Era perceptível a inspiração “orgâ­nica” nas suas estruturas e fechamentos, com claras alusões a árvores e florestas. O nosso estande favorito, entretanto, passava longe do ecologicamente corre­to  —  a Moroso roubou a cena, com a sua magnífica estrutura imersa no mais profundo vermelho. Ali, além das peças de Patricia Urquiola, estava presente a mais recente criação de Tokujin Yoshioka, a Panna Chair. Mais adiante, não passou despercebida a área reservada por uma de nossas grifes de moda favoritas, a Mis­soni, que trouxe para a Feira o feérico co­lorido de suas estampas, traduzido para os sofisticados móveis da série Missoni Home.

Durante a semana do Salão do Móvel, não é apenas nos pavilhões da Fiera Mila­no que se podem apreciar as novidades. Eventos, mostras e exibições pipocam por toda a cidade, que se torna um ver­dadeiro playground para os aficionados em design, um infindável labirinto de lo­cais interessantes para se visitar. A revista Interni, respeitada publicação italiana de arquitetura e design, edita anualmente o guia FuoriSalone, que lista e indica os eventos organizados fora dos pavilhões da Feira  —  eventos paralelos que, na edi­ção de 2008, superaram em muito a exi­bição na Fiera Milano.

Na Triennale, Museu de Design de Milão, uma série de mostras formava um con­junto de tirar o fôlego. Aquela organiza­da pela Vitra  —  fabricante suíça de móveis e acessórios  —  comemorava os cinqüenta anos da empresa, e celebrava a sua longa parceria com arquitetos e designers mun­dialmente reconhecidos, exibindo uma nova coleção composta por peças únicas, de produção estritamente limitada. Entre elas, uma surpreendente mesa criada nas pranchetas de Zaha Hadid  —  brilhante ar­quiteta nascida em Bagdá e radicada em Londres  —, e produzida em uma edição li­mitada a doze peças. Havia ainda a Kimo­no Chair, mais uma vez de Tokujin Yoshio­ka, em uma série de 24 peças; as chaises The Duke & The Duchess, de Greg Lynn, das quais foram produzidas doze cada; e as cadeiras de Naoto Fukasawa  —  um desenho tão simples quanto primoroso, executado em vários materiais, do acríli­co ao mármore, também em doze peças cada.

Outra exposição a sacudir a Triennale foi a Kasa Digitalia, organizada pela fábrica de laminados italiana Abet Laminati, para mostrar as possibilidades de seus produ­tos. O projeto da mostra saiu das verti­ginosas pranchetas de Karim Rashid, de­signer industrial nascido no Cairo. Filho de pai egípcio e mãe britânica, Rashid foi criado no Canadá, e hoje está radicado em Nova York. Criatura naturalmente alo­prada, o designer estava em sua melhor forma na exposição projetada para a Abet  —  uma viagem lisérgica por cores tão psi­codélicas quanto arrebatadoras. Em um espaço logo ao lado da Kasa Digitalia, a Bticino, responsável pela fabricação de algumas das melhores linhas de interrup­tores e tomadas no mercado, marcava presença com uma exposição intitulada Percurso do Design. Comemorando os sessenta anos de atuação da empresa, a mostra percorria a evolução do design de seus produtos, em cenários meticulosa­mente montados, com curadoria de Chia­ra Colombi e do Estúdio Ravaioli Silenzi. Para cada década, um sugestivo contexto foi montado, com os diversos elementos de época  —  roupas, decoração, aparelhos e, até mesmo, fundo musical  —  sempre ao lado dos respectivos interruptores e tomadas Bticino.

Além dessas mostras, havia várias outras espalhadas pelos salões da Triennale. O que é design italiano? Responder a essa pergunta era o objetivo de uma delas, a Made in Cassina  —  organizada pela fabri­cante de móveis e acessórios de mesmo nome. O grand finale, contudo, estava reservado para os jardins do museu.

A Kartell  —  vanguardista fabricante de mó­veis e acessórios, grande parte em acríli­co  —  anualmente já se faz representar na Fiera Milano por arrojados estandes, cada um mais surpreendente do que o outro. O do ano passado era uma inusitada es­trutura em tubos de pvc, completamente branca. Esse ano, uma instalação em fitas multicoloridas. Mas, em 2008, a empresa não ficou só no estande da Feira. Foi mais além, e armou, nos jardins da Triennale, uma encantadora e divertida exposição, para mostrar as suas linhas de móveis para áreas externas. Destaque era o exce­lente trabalho de topiaria, com grandes arbustos cortados para reproduzir as pe­ças da empresa.

Saindo da Triennale, há muito que ver em outras partes da cidade. A Zona Tor­tona  —  área alternativa na periferia de Milão onde, durante a semana do Salão do Móvel, também é organizada uma série de exposições  —   apresentou, esse ano, diversas instalações memoráveis. Essas mostras ficam distribuídas entre os muitos galpões e armazéns que ficam na Via Tortona e arredores. Entre elas, a da Bisazza  —  fabricante italiana de pastilhas em vidro  —  mais uma vez surpreendeu. Assim como no ano passado, a Bisazza convidou expressivos nomes da cena do design internacional para montar seus espaços. O primeiro trazia a inconfundí­vel marca do traço elegante de Andrée Putman  —  aclamada designer e arquiteta de interiores francesa  —,  em um cenário tão minimalista quanto sofisticado. Jai­me Hayon  —  artista plástico e designer espanhol  —, com a sua característica ir­reverência, foi responsável pelo segun­do. Hayon, que no ano passado já havia montado um cenário de Alice no País das Maravilhas para a Bisazza, esse ano apre­sentou um aeroplano em tamanho real, todo revestido em pastilhas.

Também na Zona Tortona podia-se apre­ciar o primoroso trabalho de Marcel Wan­ders, designer saído dos Países Baixos, dono de um traço que mistura elegân­cia, proporção e irreverência na medida certa. Esse ano, ele foi responsável por aquela que foi uma das melhores apre­sentações da Semana do Móvel. Para a Poliform, criou um estande ímpar, em que a atenção aos pequenos detalhes formava um espaço rico e cheio de bos­sa. Mais adiante, o designer britânico Tom Dixon mostrava mais uma vez a que veio. Assim como no ano passado, Dixon  —  uma das poucas figuras no cenário do design internacional sem formação na área  —  tinha o seu próprio espaço, com uma infinidade de peças arrebatadoras. Destaque para as luminárias cromadas e vermelhas. E, por falar em luminárias, a Foscarini, especializada em ilumina­ção, também retornou esse ano a Zona Tortona em um instigante espaço, todo em lona tencionada e retro-iluminada. Lá dentro, as novas luminárias da linha Tropico, uma curiosa concepção de Giu­lio Iacchetti. A série é formada a partir de um sistema modular, que permite a fabri­cação de luminárias de várias formas e tamanhos. Em uma alusão à linguagem formal dos lustres em cristal, com a sua mágica refração de luz, a luminárias da linha Tropico são obtidas através da repe­tição de apenas uma peça modular, que dá forma aos volumes através dos quais as sombras são modeladas.

Uma visita a Milão não poderia passar sem que fossem conferidas as novidades da Moooi, a preferida de nossa equipe entre as pequenas grandes marcas. E a irreverente produtora holandesa de mó­veis e acessórios mais uma vez não dei­xou a desejar em sua enorme área de exposição, montada na Zona Tortona, e exibindo praticamente todo o seu catálo­go, das peças já consagradas aos últimos lançamentos. Entre esses últimos, a femi­ninamente encantadora luminária Lolita.

Ainda na Zona Tortona, entre as expo­sições da Swarovski e da Armani Casa, um inesperado lounge roubou a cena. A Campari  —  ela mesma, aquela bebida es­tranhamente cafona  —  mergulhou os vi­sitantes em um primoroso espaço verme­lho e branco, das pranchetas de Markus Benesch. Parte da campanha ReDesign, para promover a CampariSoda, o lounge tinha inegável apelo, ainda que não qui­séssemos provar o tal drink.

Durante a semana do Salão do Móvel, há muito que ver Milão. Além da Fiera Mila­no, da Triennale e da Zona Tortona, em cada praça, por cada rua, em cada loja, hotel, bar ou restaurante há uma mos­tra, uma instalação, um evento. Arquite­tos, designers, empresários, fabricantes e comerciantes vêm de todas as partes do mundo, para exibir, ver, vender, comprar, trocar idéias. Os brasileiros formam uma das maiores delegações a bater ponto anualmente no evento, ainda que nem sempre estejam ali exatamente para fazer o que importa. A questão é que muitos se perdem em festas e recepções  —  um fardo, quando se pensa que há tanto a ser visto em apenas seis dias. Esse ano, um grupo deles  —  animada e espontane­amente  —  meteu-se em uma cilada. Pior ainda, a maioria não a percebeu como tal. A festa Decoração e Design Brasil  —  oferecida pelo shopping D&D, de São Paulo, e pelo Casa Shopping, do Rio, aos profissionais brasileiros que foram ao Sa­lão do Móvel  —  reuniu cerca de 1.200 deles em um tal de Café Atlantique, um bar de periferia, onde o diabo perdeu as botas  —  não as Prada, é claro. Era lon­ge, mas tão longe, que nem os táxis se aventuravam por lá. Na saída, uma briga para se conseguir arrumar um. Lá dentro, bebida de segunda em copos de plástico, Amaury Jr. fazendo a habitual cena, um bando de gente querendo ser entrevista­da e pensando estar fazendo e aconte­cendo. Fazer e acontecer, de fato, fizeram e aconteceram os que exibiram os seus produtos e as suas criações pelas diversas mostras na cidade.

O Salão do Móvel de Milão é um even­to enorme e exaustivo. Mas é também uma grande vitrine, onde é apresentado o que vai pela cabeça das grandes men­tes do design e da arquitetura de inte­riores no mundo. Se uma visita à Feira é cansativa, é também enriquecedora. Das grandes mostras aos pequenos de­talhes, das exibições paralelas às peças, materiais, formas e proporções apresen­tados na Feira, nada pode exatamente ser taxado como mais do mesmo. Algo, com certeza, que passou despercebido ao casal de paulistas. Gente que deve ter ido a tal festa. E voltado anonimamente para casa.

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