TIAN' NAMEN

novembro  |  2016

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 04  .  edição 41
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Tian' namen

Assim como Pink Floyd, adoro o trabalho solo de Roger Waters. Em 1992, o álbum Amused to Death trazia a faixa Watching TV, sobre uma estudante chinesa.

A estudante de filosofia, filha de engenheiro, assistente de cozinha em uma lanchonete, de olhos amendoados e com as roupas ensanguentadas que morreu   —   assim como tantos outros   —   ao vivo, na televisão.

And she is different from Cro-Magnon man | She’s different from Anne Boleyn | She is different from the Rosenbergs | And from the unknown Jew | She is different from the unknown Nicaraguan | Half superstar half victim | She’s a victor star conceptually new | And she is different from the Dodo | And from the Kankanbono | She is different from the Aztec | And from the Cherokee | She’s everybody’s sister | She’s symbolic of our failure | She’s the one in fifty million | Who can help us to be free | Because she died on TV.          

Pela televisão, lembro bem daquelas semanas. Era 1989. Desde abril, uma série de manifestações lideradas por estudantes sacudia Pequim. Em 4 de junho, o governo comunista chinês decidiu encerrar os protestos abrindo fogo sobre as pessoas reunidas em Tian’namen, a Praça da Paz Celestial. No dia seguinte, a imagem do jovem anônimo e desarmado que desafia uma fileira de tanques de guerra fez história como símbolo de resistência a qualquer opressão.

Vários artistas que admiro cantaram a tragédia chinesa   —   o próprio Waters, Siouxsie & the Banshees e Sinead O’Connor entre eles. O’Connor, aliás, muito antes de Miley Cyrus haver sequer feito aquelas bobagens para a Disney, para não falar em tentar polemizar com quem de fato pensa. Mas isso é outra história.

Em uma manhã ensolarada do ano passado, era de Siouxsie a música que meu Ipod imaginário tocava quando entramos na praça: You awoke in a burning paper house | From the infinite fields of dreamless sleep | You return to Tian’namen | An eyewitness in a shroud | To see them fall, feel them yield | Reliving the terror of the crowd.

A atmosfera, todavia, era pacífica. Tian’namen estava cheia   —   como, aliás, está a China em quase toda parte  —  mas ordeira, e a serenidade que eu via contrastava com a letra da música em minha cabeça. É estranho visitar um local que por décadas evocou imagens tão sombrias. Parece haver outra camada por baixo do que se vê, do que se escuta, do que se sente. Entre a Praça e Cidade Proibida, foram dois dias de visita. Dois dias das cinco semanas que passamos na China.

Uma viagem agradável, peculiar, irritante, instrutiva, prazerosa, desagradável   …   E tantos outros adjetivos quanto são os chineses. Há sempre, porém, um momento que faz toda a experiência valer a pena. Aquela coisa que particularmente marca, que fica. A série de pipas colorindo o céu de entardecer em Xi’an concorreria com algumas outras passagens, mas foi longe do incansável e incessante burburinho daquela gente que a imagem da China ficou para mim mais clara, mais viva e mais próxima.

A cerca de 200 quilômetros nordeste de Pequim, em um trecho da muralha pouco visitado, quase deserto, com o sol brilhando e o vento passando entre as frestas na rocha, pensei: Que bom que vim aqui. Paz.

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