SEX AND THE CHURCH

outubro  |  2013

 


 

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Sex And The Church

A essas alturas, a maioria das pessoas já é familiar com a história de Malala Yousafzai. Se não é, deveria. E, como uma boa história nunca exaure o seu fascínio e apenas se renova quando recontada, por que não lembrar?

Malala é a garota paquistanesa que, em sua luta incansável e destemida pelo acesso à educação para crianças do sexo feminino  —  combatido em seu país  —, tornou-se símbolo de uma causa e expôs uma das faces mais medonhas do fundamentalismo religioso. Filha de um professor, Malala apareceu pela primeira vez na imprensa mundial em 2009, quando escreveu um comovente diário sobre a sua vida sob o regime do Talibã. Três anos mais tarde, em outubro de 2012, foi baleada na cabeça por um fanático  —  e foi baleada exatamente, e apenas, por defender a educação para garotas. O atentado ocorreu dentro do ônibus que a levava à escola, e duas outras crianças saíram feridas. Naquele ponto, Malala já era bem conhecida no Paquistão, mas foi o repugnante ato da patrulha religiosa que a catapultou à fama internacional.

Malala sobreviveu aos ferimentos, e a história de sua longa recuperação, das delicadas cirurgias iniciais no Paquistão ao programa de reabilitação na Inglaterra, tem sido largamente coberta pela mídia. Em janeiro passado, ela foi finalmente liberada do hospital, e a sua vida tornou-se incrivelmente diferente do que qualquer coisa que pudesse ter imaginado quando era apenas uma voz anônima a descrever o pavor da vida das meninas sob a sombra do Talibã. Eleita uma das pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, Malala viu seu nome considerado para o prêmio Nobel da Paz, e publicará um livro ainda antes do final do ano.

A garota queria apenas estudar. Só isso. Mas queria fazê-lo em uma terra onde parte da população toma as suas crenças religiosas como a verdade única e absoluta, mandatória para todos.

Marco Feliciano  —  não o qualifiquemos como pastor ou como deputado federal, pois ele não se dá ao respeito nem como um, nem como outro  —  esteve em Pernambuco há poucos dias, participando de um evento evangélico em Jaboatão, e encontrou-se com Anderson Ferreira, cidadão que defende a família, mas apenas, e apenas, da forma que ele a concebe. Onde se encontram, contudo, essas histórias?

No ponto mais perverso e obscuro da religião organizada. Em princípio, cada uma delas prega o amor, a compaixão, a compreensão e a solidariedade. A questão é o que vem depois  —  pois a compaixão e a compreensão são devidas exclusivamente desde que se sigam os seus dogmas. Se uma dessas religiões entende que Deus não quer que as meninas estudem, que se não permita, mesmo que as garotas assim o desejem. Se outra prega que atos homossexuais são proscritos por Deus, que não sejam tais atos tolerados, mesmo que haja na comunidade pessoas adultas, informadas e responsáveis que desejem se engajar em relações homossexuais, e que não tenham nada a ver com a tal religião.

Este é o ponto  —  as religiões organizadas não toleram qualquer coisa que se afaste de seus dogmas, e tentam aplicar as suas crenças não apenas aos seus fiéis, mais a todas as pessoas. Não tenho nada contra religião organizada. Cada um acredita no que quiser. Até no conto da carochinha. Alguém acredita que Deus não deseja que as garotas estudem? Sendo uma garota, que não estude, então. Uma pessoa acredita que Deus fez a família como a união de um homem e uma mulher? Que se case com alguém do sexo oposto, pois. Só não me venham dizer para não estudar ou com quem devo casar. Não sou da sua religião. As suas crenças não me dizem respeito.

Sou homossexual, e nem por isso quero que todas as pessoas o sejam. Não quero que qualquer pessoa tente alterar a sua orientação sexual ou esconder a sua condição por minha causa. Também não quero que deixem de ser evangélicos, católicos, protestantes, judeus ou muçulmanos. Que acreditem no que quiserem. Mas que não venham me dizer no que acreditar ou com quem se deitar.

O Brasil é um país laico, e não uma teocracia. Um político que tenta impor as suas crenças ao país através de leis não está muito distante do talibã com uma arma em punho  —  ambos acreditam que tem o dever de tornar mandatória a palavra de Deus a todos, e se distanciam apenas uns poucos degraus na escada do fundamentalismo. Uma escada que Malala esnobou, tomando o elevador. Salve Malala.

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