PELAS AREIAS DO KALAHARI

setembro  |  2013

 


 

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Pelas Areias do Kalahari

“Aqui o céu é tão estranho… é quase sólido… como se estivesse a nos proteger do que está por trás…”

As areias daquela parte da Namíbia se estendem para o horizonte sem qualquer consideração por quem as observa. Era uma manhã ensolarada de terça-feira, no comecinho de setembro. Amigos queridos, daqueles aos quais a vida nos apresenta de vez em quando  —  e sempre mais raramente do que gostaríamos  —, haviam nos levado ali: o Kalahari. Se as suas areias de nós quatro nada sabiam, até onde iam também não queríamos saber, e muito menos nos importávamos. Apenas caminhávamos, duna acima, duna abaixo. Nada mais tinha qualquer relevância. Éramos e estávamos naquele momento, naquele lugar  —  naquela alegria que simplesmente é, e que não pede razão para ser.

O deserto e o céu. Ali não havia água. Não havia som. Pouco dizíamos. Apenas, vez por outra, sorríamos. Ali não havia piso. Não havia paredes. Não havia teto. E nem telhado. Ali não havia arquitetura. E nenhuma das outras coisas que usamos para nos proteger do horror de nossa insignificância. O vento era a única trilha sonora para pessoas que compartilhavam um todo maior que as partes. E apenas o céu protegia.

A arquitetura, de fato, não importa. E nem a gastronomia. E nem a música. E nem a moda. E nem o mercado. E nem a política. E nem a história. Na qual nós, aliás, somos apenas quase um segundo. No deserto. No nada.

A frase lá no comecinho, em itálico, vem do romance O Céu que nos Protege, escrito em 1949 por Paul Bowles. E o que está por trás é o que nos mostra o quão relativa é a importância de tudo aquilo com o que nos ocupamos em nosso dia a dia. O cotidiano é um falso Deus  —  rezemos para ele e estamos perdidos. Uma vez distanciados de seus dogmas, percebemos a insignificância das coisas as quais atribuímos valor.

Neste sentido, estava certo Oscar Niemeyer: “A vida é maior que a arquitetura.” E é. Niemeyer deve, a seu modo, ter visitado o deserto. Ele sabia que não dá para se levar a sério. E nem o que se faz: arquitetura, gastronomia, música, moda, economia ou política. Essas coisas fazem sentido apenas aqui e agora, para quem as faz, vivencia e consome  —  para quem dão prazer  —, e para ninguém mais. Essas coisas jamais podem virar religião — e vestir a perfídia de seu dogmatismo.

Era para escrever sobre arquitetura. E talvez até eu o faça. Sorrio, todavia, quando penso em quantas vezes me perguntam de que cor deviam pintar alguma parede. E eu sei lá? Pinta da cor que quiser, da cor que te fizer feliz. E vê se esquece minha opinião. E a de qualquer outra pessoa. Acabo, claro, sempre dando a resposta. Mas não sem antes mencionar que aquela é apenas a cor que eu escolheria para mim naquele momento, e não a verdade absoluta fugindo da qual se estaria sujeito ao fogo do inferno.

Assim, naquela manhã, no deserto da Namíbia, talvez a minha cabeça nem estivesse tão vazia. Pois imagino, agora, enquanto sobrevoamos o Atlântico de volta a nossa casa  —  Turíbio e eu  —  que ao menos parte do que descrevo aqui tenha me ocorrido naquela manhã no Kalahari. Ou talvez não. Lembro que aquele dia era véspera de nosso aniversario de casamento. E lembro que o dia seguinte é parte da certeza que nos protege.

Lá fora, através da janela do avião, está apenas ele, o céu. Penso em Niemeyer. Penso em Paul Bowles. E, como alguém uma vez disse, “… Bowles conseguiu vislumbrar o que está por trás do céu que nos protege …   uma infinita vastidão de estrelas tão semelhante aos átomos que nos formam que, em nossa apreensão com essa terrível infinitude, sentimos não apenas pavor, mas reconhecimento”.

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