PARA ALÉM DE PERNAMBUCO

dezembro  |  2010

 


 

  •  artigo publicado na edição de estreia da Let’s Go Pernambuco  —  ano 01  .  número 01
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Para Além de Pernambuco

Vamos dar uma volta. Sim, vamos sair por aí. Para longe, e para além de Pernambuco. Para todo, e para qualquer lugar. Vamos olhar ao redor, e prestar atenção ao que vemos, de forma curiosa e inquisitiva. Vamos olhar para os outros, para o que fazem, como fazem e quando fazem.

Quando em visita aos Estados Unidos, não nos cansamos de elogiar e admirar a eficiência e a solidez do que vemos. Apesar de sabermos criticar o imperialismo cultural e econômico americano, nosso apego ao ‘s  —  como recentemente comentou Roberto Pompeu de Toledo  —, do qual fazemos quase religião, trai-nos em nosso amor ao que é americano, ao que funciona, ao que é limpo, ao que é eficaz e ao que é próspero. Adoramos shoppings, adoramos centers, adoramos towers. Do outro lado do Atlântico, em visita à Europa, deslumbramo-nos ao sair de um antigo hotel, esplendorosamente restaurado, atravessar a ponte sobre o rio à sua frente, visitar o casario histórico, impecável em sua conservação e lado a lado a maravilhas da arquitetura moderna. Extasiados, sentamo-nos à mesa em uma calçada qualquer, pedimos uma taça de vinho e pensamos: ah, aqui na Europa é outra coisa. Mas não dá para parar por aí, há muito que ver: a área portuária da Cidade do Cabo, a orla urbana de Sidney, a Avenida Omotesand? em Tóquio. Há de tudo, e para todos.

Poderíamos ter tudo isso. E poderíamos ter tudo isso bem aqui. Para além da arquitetura, há, em Pernambuco, certos estabelecimentos que são verdadeiros ícones de nosso estado  —  instituições que marcaram época, por várias gerações, na alma pernambucana. Há paisagens e locais unicamente nossos. Alguns deles, entretanto, já não existem mais. É o caso do antigo e charmoso calçadão da Avenida Boa Viagem, em pedras portuguesas. Ao contrário do Rio de Janeiro, que soube valorizar e preservar os eternos desenhos de Burle Marx, desfiguramos o nosso, em uma reforma tão inconseqüente quanto desinformada. Hoje, a orla aparenta o que de fato é: uma beira-mar provinciana. E, para ficar nas imediações, o Hotel Boa Viagem sumiu sem deixar rastro. A edificação que poderia ser o nosso Copacabana Palace, em frente a uma das praias urbanas mais bonitas do Brasil, cedeu lugar à construção de uma torre residencial tão singular quanto a terceira pessoa do plural.

Se alguns dos ícones pernambucanos desapareceram, outros sofreram uma total alteração em seu uso. É o caso do antigo Grande Hotel, no centro do Recife, cuja edificação atualmente abriga o Fórum Thomaz de Aquino. O recifense que hoje visita a Europa e se delicia hospedando-se em um hotel secular à beira de um rio mal se lembra que poderia ter tudo isso bem aqui, em sua própria cidade. É isso que poderia ser hoje o Grande Hotel, às margens do Capibaribe, de frente para o Bairro do Recife.

Imagine cruzar o seu saguão, reluzente de novo, e ganhar a orla do rio, sem não antes esbarrar com aquele decano astro do cinema americano, na cidade para filmar alguma cena em locação, e que ora entra para fazer o seu check-in. Imagine passear pela Avenida Martins de Barros, ao longo do promenade do Capibaribe  —  rio, aliás, em um largo arroubo de imaginação, plenamente revitalizado e despoluído, por onde barcos turísticos deslizam, e de onde turistas japoneses atrás de câmeras digitais nos espreitam através das janelas de vidro. Nem Veneza brasileira, nem Amsterdã tupiniquim: Recife mesmo, sem apresentações comparativas. Imagine cruzar a ponte Maurício de Nassau, descer a Avenida Marquês de Olinda, e passear pelas ruas do Recife Antigo, limpas, ordenadas, livres da fiação aérea e com calçadas transitáveis. Imagine sentar à mesa em uma delas, pedir uma caipirinha, e entregar-se àquela deliciosa ocupação que é ouvir a conversa da mesa ao lado. Em uma delas, aliás, um grupo de turistas alemães, ávido por informações sobre o nosso passado. Gente que teria em mão guias turísticos fartamente ilustrados, e não as nossas menores de idade sumariamente vestidas. Imagine chegar então ao Marco Zero, e se encontrar em meio a um grande parque, uma faixa verde à beira do mar que substituiria os antigos armazéns portuários, liberando a ventilação do bairro, e por onde passeariam mães com seus carrinhos de bebê, patinariam adolescentes, namorariam casais, fariam jogging senhores, todos residentes logo ali ao lado, em duas torres gêmeas que pontuam a paisagem para o sul. Ao entardecer, imagine dirigir-se a um shopping elegantemente instalado em uma antiga construção alfandegária, ao lado da qual um velho prostíbulo foi transformado em centro cultural, com salas de cinema e auditórios. Em cartaz, de Woody Allen a Tônia Carrero. Imagine terminar o dia com um jantar com vista para o Capibaribe, passear à noite pelos bulevares, atravessar a ponte e retornar ao Grande Hotel. Imagine o Bairro do Recife vivo, pulsante, humanizado, habitado, auto-suficiente. Imagine que isso tudo poderia ser nosso. Não é, e possivelmente tão cedo será. Encantamo-nos em nossas viagens ao exterior, mas não sabemos o quão possível seria para nós orgulharmo-nos de nossos arredores. De nossa cidade. De nosso Estado. Para isso, é necessário mais que um carnaval ou um porto de galinhas.

Entre as instituições ícones de Pernambuco, entretanto, há algumas que entram no século XXI plenamente renovadas, em pleno funcionamento, preparadas para embalar as memórias de várias gerações futuras. O Cinema São Luiz permanece encantando plateias com os seus vitrais coloridos e aura de um tempo em que home theater era coisa dos Jetsons. O Restaurante Leite  —  o mais antigo em funcionamento no país  —  aparece inteiramente reformado e tecnologicamente atualizado.

Vamos dar uma volta. Sim, vamos sair por aí. Para longe, e para além de Pernambuco. Let’s go outside. Talvez assim colocássemos em perspectiva o que realmente somos e qual o nosso potencial. Talvez assim, de fato, Let’s Go Pernambuco.

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