ONDE O VENTO FAZ A CURVA

janeiro  |  2008


 

  •  artigo publicado na revista Class Casa  —  ano 03  .  número 10
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Onde o Vento Faz a Curva

Em seu adorável romance autobiográfico Out of Africa, pu­blicado pela primeira vez em 1937, a baronesa Karen Blixen reconta, em uma narrativa memorável, as quase duas décadas em que viveu no Quênia, à frente de uma fazenda de café. Na­quela obra, a tristeza da aristocrata dinamarquesa é quase into­leravelmente palpável quando finalmente  —  após a falência da fazenda, a perda de seu companheiro e na iminência de uma guerra  —  ela deixa a África, e retorna à Europa para escrever o que seria uma carta de amor ao país que chamou de lar por quase vinte anos. Mal poderia imaginar o quanto o título de sua mais conhecida criação seria banalizado na África atual.

Mas nos adiantamos em nossa matéria, arriscando perder o fio da meada. E, assim como Denys Finch Hatton, o britânico por quem Blixen se apaixonou na África, nós gostamos de uma his­tória bem contada. Voltemos então ao nosso ponto de partida. O que tratamos aqui se passa algumas décadas mais tarde, e em um país bem distante. Lá, bem longe, nos confins do con­tinente africano, onde os ventos e algumas correntes maríti­mas fazem a curva. A porção mais meridional da África abriga uma nação em ascensão  —  um lugar onde a mistura de uma gente cordial e inventiva e de imensas riquezas naturais, em meio a uma estonteante abundância de paisagens magníficas, conspira para criar novas oportunidades e formas de viver. A África do Sul atual é um enclave de prosperidade em meio a nações subdesenvolvidas, tomadas pela pobreza, pela fome e por guerras tribais.

Desde a queda do regime de apartheid, em 1994, a nação pôs em marcha uma série de iniciativas estratégicas para acelerar o desenvolvimento e o crescimento econômico, beneficiando toda a população e combatendo a pobreza  —  marcas deixa­das por décadas de subdesenvolvimento. A consolidação da democracia e a invejável estabilidade econômica passaram a criar tanto oportunidades quanto desafios, dando impulso a uma transformação social sem precedentes no continente. O país inicia em 2008 o nono ano do mais longo período de crescimento econômico de que se tem registro. A renda per capita cresceu 22 % desde 1999, com ganhos significativos em todas as faixas de renda. O desemprego cai. A economia deve crescer 4.5% esse ano, e retornar ao patamar de 5% em 2009 e 2010. O país é o maior alvo de investimentos estrangeiros em todo o continente africano. Essa é a África do Sul do século XXI: moderna, vibrante e produtiva. Enraizada no que há de mais africano, ciente de suas origens  — ainda que nunca bairrista  —  e em estreito contato com o mundo globalizado.

Acompanhando o crescimento econômico, salta aos olhos a vi­gorosa infra-estrutura turística sul-africana, de fazer corar quem acredita que ser enredo de escola de samba é uma boa estraté­gia para se atrair visitantes. Eles não têm uma bandinha irritante dando boas vindas no aeroporto  —  após um vôo de cerca de dez horas, ninguém merece aquele barulho. Os sul-africanos têm, isso sim, boas estradas, segurança na maior parte do país, magníficos hotéis, pousadas de charme, restaurantes encanta­dores e uma desconcertante  —  particularmente quando com­parada à brasileira  —  postura frente ao turista. A regra parece ser a de atender bem o visitante em tudo que ele necessita, sem que se assuma, contudo, uma atitude invasiva. Do mercado municipal ao shopping center, do motorista de táxi ao chofer da limusine, o sul-africano deixa clara a sua mensagem de que o turista deve ser bem atendido, nunca manipulado. E jamais tomado como fonte de vantagem imediata. O turista deve sair de lá se sentindo bem assistido, para que deixe algo mais em sua próxima visita, e não explorado pelo que pode despender aqui e agora. Para se ter uma idéia, na África do Sul existem vinte estabelecimentos com a chancela da associação Relais & Châteaux, enquanto no Brasil só existem três. Para a venerável associação francesa, mais que a opulência das instalações con­ta a excelência no serviço e no atendimento.

Com tudo isso, é curioso que, em arquitetura, a África do Sul não pareça acompanhar a evolução dos tempos. Não que inexista, no país, o que se ver. Uma visita à África do Sul não se limita às deslumbrantes paisagens e à exuberante fauna, aos safáris e aos esportes radicais. De encantadoras construções vernaculares a prédios históricos, de acolhedores lodges nas pradarias às char­mosas marcas deixadas pela herança holandesa e britânica, a nação sul-africana mostra-se um lugar diverso. Ainda assim, não são muitos os exemplos de arquitetura contemporânea dignos de nota. Em arquitetura, a produção atual é, de modo geral, quando não insípida, simplesmente equivocada.

Na Cidade do Cabo, jóia da coroa do turismo sul-africano, a paisagem deslumbrante oblitera qualquer exemplo mais signi­ficativo de arquitetura atual. E exemplos não existem muitos, pois várias chances para erguê-los são desperdiçadas. Na cons­trução do Table Bay Hotel, por exemplo, deixou-se passar uma magnífica oportunidade de se fazer, em arquitetura, algo que realmente importe. Plantado na melhor área do Victoria & Al­fred Waterfront, dominando uma linda vista da cidade, o hotel, ainda que acolhedor, poderia ter sido um marco da arquitetura sul-africana atual. A sua privilegiada situação na região portu­ária permitiria erguer ali um edifício internacionalmente reco­nhecido, como a Sydney Opera House ou o museu Gugge­nheim, em Bilbao. Mas não: o que se vê é um pastiche cafona de algo que nunca existiu. Curiosamente, o estabelecimento foi construído e é operado pela Sun International, responsável por outro engodo sul-africano, o hotel The Palace of the Lost City, próximo a Joanesburgo, por anos falsamente vendido como o único hotel seis estrelas do mundo. Menos cafona e mais acolhedor, o Table Bay, ainda assim, é pouco significativo em arquitetura. E não está sozinho. O Cape Grace Hotel, um pouco mais adiante, é um tanto melhor, mas nada assim sur­preendente.

De ponta a ponta, projetos inexpressivos são o que se encon­tra no Victoria & Alfred Waterfront, cais da Cidade do Cabo transformado em um grande shopping, com butiques de gri­fe e artesanato, hotéis, bares, restaurantes e boates. O plano multimilionário para a sua reforma incorporou idéias de outras iniciativas, como as do projeto para o porto de São Francisco, na Califórnia. A área é agradável e aprazível ao turista. Está lon­ge, contudo, de ser uma festa em arquitetura. Os shoppings  —  como o Victoria Wharf  —  tomam, em sua concepção, aque­le partido de coisinha engraçadinha para turista ver. Lá dentro, parece que quase tudo é batizado de Out of Africa: lojas de souvenir, de brinquedos, butiques de moda, óticas, livrarias e bares. Com o título da obra de Karen Blixen, podem-se com­prar camisetas, canecas, chaveiros, canetas, bonés, cadernos e álbuns. O que não deixa de ser uma apropriação indevida, pois a baronesa Blixen morou no Quênia, e não na África do Sul.

Há, claro, exceções no marasmo arquitetônico. E uma delas fica não na região portuária, mas no centro antigo da Cidade do Cabo. Inaugurado há pouco mais de um ano, o Mandela Rhodes Place é um instigante empreendimento, largamente reconhecido como o catalisador da revitalização do centro histórico. A concepção do escritório de arquitetura sul-afri­cano DHK Urban Concepts para o complexo parte do apro­veitamento das fachadas de alguns prédios do centro históri­co  —  bons exemplares da herança arquitetônica da cidade  —  que ocupam a totalidade de duas quadras, bem ao lado da St. George’s Cathedral. As fachadas dos prédios foram manti­das, e restauradas. Os interiores já haviam sido bastante des­caracterizados, e foram descartados. Os centros das quadras foram totalmente demolidos, os miolos dos prédios ocados e o espaço resultante reordenado, servindo agora como base para bons exemplos de arquitetura de nossa época, graciosamente envolvidos pela casca de prédios históricos. Os interiores, con­cebidos por três diferentes escritórios de arquitetura, abrigam apartamentos residenciais, que se apresentam com vários tipos de planta: estúdio, com um quarto ou com dois quartos. Os apartamentos contam com serviços de hotelaria, e o complexo abriga ainda escritórios, salas de conferência, lojas, restauran­tes, coffee shops, uma academia, piscina e edifício garagem. No pavimento térreo, uma agradável vinoteca destaca-se en­tre os estabelecimentos comerciais, e fica em frente a um char­moso café, instalado no átrio central da edificação. No sétimo andar, o restaurante Synergy on 7 é um ambiente leve, atual e cosmopolita. Talvez um tanto demais cosmopolita, diga-se, pois embora em linha com o que se produziu em anos recentes em outras metrópoles  —  como o Mondrian, em Los Angeles, ou o Emiliano, em São Paulo  —,  não prima por nada, em seu pro­jeto, que o situe no mapa sul-africano. Apresenta, ainda assim, a mesma vibração de atualidade e reverência ao bom design contemporâneo, representado pelos belos lustres Caboche, da espanhola Patrícia Urquiola.

O Mandela Rhodes Place é, de fato, uma surpresa em meio ao centro da Cidade do Cabo. Além disso, o foco de sua concepção é uma aula de como tornar uma cidade mais atraente para o turista, pois um de seus objetivos é o de, em última instância, fa­zer a ponte entre o Victoria & Alfred Waterfront e o sopé da Table Mountain  —  duas das maio­res atrações turísticas da cidade  —, tornando a Cidade do Cabo um lugar vibrante e cultural­mente ativo, com atrações variadas que podem ser percorridas continuamente, como ocorre em capitais européias como Praga, Barcelona e Dublin. Não é, por outro lado, em nada muito diferente do que já se faz em Londres ou Los Angeles há mais de duas décadas. A Cidade do Cabo é adorável, e tudo o que o Rio de Janeiro queria ser, mas não é: segura, limpa, educada e desenvolvida. Não tem, todavia, um marco arquitetônico, como o Museu de Niterói. Para achar algo realmente mais instigante, é preciso ir às montanhas, à região vinícola do Cabo.

A cerca de cem quilômetros de distância, facilmente percor­ridos em excelentes rodovias, os Vinhedos do Cabo formam uma encantadora região, responsável pela maior parte da pro­dução vinícola sul-africana, e certamente uma das principais atrações turísticas da África do Sul. A histórica cidade universi­tária Stellenbosch, centro de vinicultura e aprendizado, possui avenidas sombreadas por carvalhos plantados em 1685, e ruas ladeadas de casas em estilo holandês, georgiano, regência e vitoriano, pelas quais se pode fazer um agradável passeio a pé. Em apenas duas quadras, um gracioso grupo de casas an­tigas, flanqueado por centros educacionais modernos, forma o complexo Rhenish, representativo da maioria dos estilos ar­quitetônicos que surgiram na cidade. Atravessam-se duzentos anos de arquitetura em apenas alguns passos. Já a elegante Paarl, ou pérola, foi fundada em 1690 nas terras no vale do rio Berg doadas aos primeiros colonos holandeses, e tem ao norte a montanha com aparência perolizada  —  particularmente ao luar  —  que lhe dá o nome. Até a pequena Franschoek, ainda que demasiadamente turística e um tanto alegórica, é motivo para descompromissado passeio. Nas pequenas estradas vici­nais que ligam essas cidades encontram-se algumas das mais charmosas vinícolas sul-africanas. Boschendal, uma das mais antigas e tradicionais, tem em sua sede um magnífico exem­plo do legado de arquitetura holandesa no Cabo. A arquitetu­ra tradicional do Cabo Oeste, reconhecida por seus desenhos simétricos e empenas salientes, surgiu em meados do século 18 a partir de uma simples fileira de aposentos de sapé, cujos tamanhos dependiam das vigas disponíveis. O formato das em­penas derivou da arquitetura barroca da Holanda. Empenas nas extremidades evitavam que os telhados fossem arrancados por ventos fortes, enquanto a empena central deixava entrar a luz no sótão  —  além de proteger a porta principal de fagulhas vindas do telhado, em caso de incêndio. A casa-sede de Bos­chendal, de 1812, é um bom exemplo dessa época.

Conhecer a arquitetura antiga da região dos Vinhedos do Cabo torna ainda mais interessante a descoberta do que se faz atualmente por lá. Mais instigante do que a arquitetura con­temporânea da Cidade do Cabo, os Vinhedos abrigam cons­truções modernas que, tanto quanto atuais e vibrantes, apre­sentam claramente as suas raízes, firmemente plantadas em solo africano. A primeira parada é a vinícola de Graham Beck, em Franschoek: a espetacular sede  —  projeto de Johan Wes­sels ganhador de vários prêmios de arquitetura  —  apresenta uma surpreendente mistura de design contemporâneo com heranças das construções vernaculares sul-africanas, e ainda referências às vinícolas européias, em um prédio tão fascinante quanto funcional.

A imponente fachada deixa clara a herança da simetria e da empenas centrais salientes das construções históricas, como na sede de Boschendal, numa instigante releitura com linguagem atual. As salas de degustação são modernas, arrojadas, reche­adas de bom design e ricas em detalhes. As bases das mesas, por exemplo, foram criadas por John Jacobs e feitas à mão por sua equipe, com a ajuda de Andre Stead, da Bronze Age. As mesas de apoio, também desenhadas para o projeto, são de Slavo, da Carella Carving. Esses elegantes interiores refletem as linhas retas da arquitetura  —  inegavelmente moderna, mas verdadeiramente sul-africana.

A poucos quilômetros dali, em uma deslumbrante estrada vi­cinal, a vinícola de Glen Carlou é outra grande experiência em arquitetura, firmemente calcada em estilos arquitetônicos nati­vos. A majestosa coberta em sapé traduz, em grandiosa escala, os telhados das construções rurais tradicionais, aqui executados com o apuro e os recursos das mais avançadas técnicas cons­trutivas. Os deslumbrantes interiores emanam a todo tempo a aura dos lodges africanos. E, como se não bastasse, a sede da vinícola abriga, além de salas de degustação, restaurante, loja e espaços para conferência, uma galeria de arte, que expõe re­gularmente obras da renomada coleção Hess. Donald M. Hess, proprietário da vinícola e grande colecionador, é responsável pela instalação das salas de exposição, que nos primeiros meses de 2008 colocam em cartaz trabalhos de Andy Goldsworthy e do sul-africano Deryck Healey.

A experiência mais radical, entretanto, ainda está por vir. E ela se encontra na vinícola de Tokara, em Stellenbosch. Aqui, as referências às tradições sul-africanas são tanto mais provocantes porque menos óbvias. Em meio a estonteantes vistas de colinas cobertas de parreiras, a abundância de concreto, aço e planos de vidro trai  —  inespe­radamente e de forma intrigante  —  o fato de que a propriedade está na África do Sul, e em nenhum outro lugar. Embora as linhas da cons­trução sejam rígidas e seu design bastante arro­jado, é com alegria que se percebe que materiais e formas subliminarmente emanam a mensa­gem de que este é o Cabo Oeste. É certo que a paisagem dos vinhedos, desconcertantemente próxima através das grandes janelas, ajuda a situar o visitante. Mas o fato é que a arquitetura  —  pairando graciosamente sobre a colina, generosa na distri­buição dos espaços, parcimoniosamente decorada e salpicada por excelentes obras de arte  —  faz dessa a mais encantadora vinícola de design avant-garde na África do Sul. A obra, das pranchetas de Van Biljon & Visser, tem entre seus muitos atra­tivos uma parede de vidro separando a recepção da cozinha, através da qual se pode observar o chef Etienne Bonthuys em ação no ultra moderno restaurante.

Graham Beck, Glen Carlou e Tokara são indiscutivelmente obras contemporâneas das quais se podem orgulhar os sul-africanos. Torçamos para que a elas se juntem, nos próximos anos, algumas outras tantas. Os preparativos para a Copa do Mundo de 2010  —  a primeira a ocorrer no continente africano  —  certamente estão contribuindo para que isso aconteça O governo investe massivamente na infra-estru­tura, e novas cons­truções pipocam em todo o país, como no novo estádio de Gre­enpoint, na Cidade do Cabo. Para a África do Sul, sediar o evento e fazer da ocasião uma das melhores de todos os tempos faz parte do sonho de construir uma nação unida em sua diversidade, equâ­nime em seu modo de vida, livre do racismo, do sexismo, e genero­sa em solidariedade. Há algo a se aprender, por que não, Out of Africa.

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