O NOVO SEMPRE VEM

abril  |  2007


 

  •  artigo publicado na revista Class Casa    edição número 04
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O Novo Sempre Vem

Toda grande cidade tem o seu grande hotel. Para espanto daqueles entre os das gerações mais novas que pouco conhecem da história recente de sua cidade, tivemos também o nosso. E ele era grande, não bem assim esse grande em português, tacanho em sua enormidade, mas Grand, em francês, com capitular e direito a tudo em que o termo implica: famoso, glorioso, ilustre, superior, belo, magnífico, nobre, magistral, régio, magno, relevante. Inaugurado em 1938, às margens do Capibaribe, com vista privilegiada para a parte antiga da cidade, se hoje ainda existisse o Grande Hotel do Recife seria uma daquelas instituições veneráveis, orgulho e graça de uma comunidade. Aqui, ali, em qualquer lugar, assim essas instituições se mantêm, renovadas e atualizadas ao longo das décadas, representantes da civilidade, da hospitalidade e da significância de uma sociedade. Os endereços são conhecidos: 150 Piccadilly, 25 Avenue Montaigne, 301 Park Avenue, Avenida Atlântica 1702. Os nomes, ainda mais: The Ritz London (1906), Hôtel Plaza Athénée (1911), The Waldorf Astoria (1893), Copacabana Palace (1923). Diminuídas seriam as cidades que os acolhem se preservados não houvessem sido esses bastiães da hotelaria. Mantê-los, aliás, não depende apenas do interesse de seus proprietários. Depende também da vontade e da capacidade de uma sociedade em se manter atraente à visitação. E isso se traduz em oferecer uma cidade limpa, segura, interessante e agradável ao olhar, ciente de sua história e segura em seu passo à frente. Nada em que sejamos assim uns experts. E talvez por isso mesmo estejamos perdendo, presentemente, o que defensavelmente seria a nossa última chance de se orgulhar em ter um grande hotel. Estamos perdendo o que possivelmente poderia ser o nosso Copacabana Palace. Estamos perdendo o Hotel Boa Viagem. O endereço era elegante até no número: Avenida Boa Viagem, 5000. A construção branca, de cem apartamentos, plantada à orla desde 1954, ora dá lugar a novos empreendimentos. O anexo já se foi, junto com a área de lazer, única em toda a praia. Há em Boa Viagem outra casa que ofereça uma piscina elevada com a extensão que tinha aquela, e toda com vista para o mar? Não que tenhamos notícia. Nosso Trecho em Obras dessa edição deixa aqui como registro uma das últimas imagens de nosso Copa. Um monumento, que se diga, a tudo que não temos mais a oferecer.

É sintomático. Possivelmente, de nossa pequenez. Quando em visita aos Estados Unidos, não nos cansamos de elogiar e admirar a eficiência e a solidez do que vemos. Apesar de sabermos rabiscar em um cartaz um ‘fora Bush’ aqui, outro lá, nosso apego ao ‘s  —  como recentemente comentou Roberto Pompeu de Toledo  -, do qual fazemos quase religião, trai-nos em nosso amor ao que é americano, ao que funciona, ao que é limpo, ao que é eficaz e ao que é próspero. Adoramos shoppings, adoramos centers, adoramos towers. Do outro lado do Atlântico, em visita à Europa, deslumbramo-nos ao sair de um antigo hotel, esplendorosamente restaurado, atravessar a ponte, visitar o casario histórico, reluzente de conservação e lado a lado a maravilhas da arquitetura moderna, que açoitam a imaginação. Extasiados, sentamo-nos à mesa em uma calçada qualquer, pedimos uma taça de vinho e pensamos: ah, aqui na Europa é outra coisa.

Poderíamos ter tudo isso. Poríamos ter nossas torres gêmeas, lado a lado com o nosso Les Halles. Poderíamos ter o melhor de dois mundos. Imagine o Grande Hotel, à margem do Capibaribe. Imagine cruzar o seu saguão, reluzente de novo, e ganhar a orla do rio, sem não antes esbarrar com aquele decano astro do cinema americano, que ora entra para fazer o seu check-in. Imagine passear pela Avenida Martins de Barros, ao longo do promenade do Capibaribe. Este, aliás, em nosso arroubo de imaginação, plenamente revitalizado, por onde barcos turísticos deslizam, e turistas japoneses atrás de câmeras digitais nos espreitam através das janelas de vidro. Nem Veneza brasileira, nem Amsterdã tupiniquim: Recife mesmo, não precisamos de apresentações comparativas. Imagine cruzar a ponte Maurício de Nassau, descer a Avenida Marquês de Olinda, e visitar o Instituto Cultural Banco Real. Nessa parte, um descanso: aqui, não se precisa imaginar, o prédio está plenamente restaurado, tinindo de novo. Torne a imaginar, e continue seu passeio pelas ruas do Recife Antigo, limpas, ordenadas, livres da fiação aérea e com calçadas transitáveis. Imagine sentar à mesa em uma delas, pedir uma caipirinha, e entregar-se àquela deliciosa ocupação que é ouvir a conversa da mesa ao lado. Nela, um grupo de turistas alemães, para nosso desespero a conversa dos quais não conseguimos entender, ávidos por informações sobre o nosso passado, abraçam-se com guias turísticos fartamente ilustrados, e não com nossas menores de idade sumariamente vestidas. Imagine chegar então ao Marco Zero, e encontrar-se em meio a um grande parque, uma faixa verde à beira do mar que substitui os antigos armazéns portuários, liberando a ventilação do bairro, e por onde passeiam mães com seus carrinhos de bebê, patinam adolescentes, namoram casais, fazem cooper senhores, todos residentes logo ali ao lado, em duas torres gêmeas que pontuam a paisagem para o sul. Ao entardecer, imagine dirigir-se a um shopping elegantemente instalado em uma antiga construção alfandegária, ao lado da qual um velho prostíbulo foi transformado em centro cultural, com salas de cinema e auditórios. Em cartaz, de Woody Allen a Tônia Carrero. Imagine terminar o dia com um jantar com vista para o Capibaribe, passear à noite pelos bulevares, atravessar a ponte e retornar ao Grande Hotel. Imagine o Bairro do Recife vivo, pulsante, humanizado, habitado, auto-suficiente. Imagine que isso tudo poderia ser nosso. Não é, e possivelmente tão cedo será. Encantamo-nos em nossas viagens ao exterior, mas não sabemos o quão possível seria para nós orgulharmo-nos de nossos arredores. De nossa cidade.

O embargo à obra das torres que a construtora Moura Dubeux constrói no cais de Santa Rita é sintomático do que não sabemos ser. De uma situação desejada que não sabemos reproduzir. Não conservamos o nosso passado, não mantemos o nosso presente, não sabemos construir o nosso futuro. Futuro, entenda-se, tomado como conjunto representativo das diversas fases e necessidades por quais passou uma sociedade. É mais fácil, claro, seguir para o aeroporto. Na volta dá ate para passar no duty-free. E olha que agora até que temos um aeroporto digno, inclusive de atentados. Quem em plena consciência, afinal, dar-se-ia ao trabalho de gastar explosivos com aquele antigo terminal rodoviário travestido de aeroporto? Corremos o risco, contudo, de nunca ter nossas torres gêmeas. Corremos o risco de nunca ter o que tanto admiramos nos outros. É sintomático. Possivelmente, de nossa pequenez.

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