O DIÁRIO DE BORDO DE ZEZINHO SANTOS

julho  |  2014

 


 

  •  artigo para a seção Malas Prontas do site da jornalsta Roberta Jungmann
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O Diário de Bordo de Zezinho Santos

A globalização é um processo histórico que, apesar de conquistas positivas, deixou uma marca profunda (e de certa forma danosa) em quase todas as grandes cidades. Atualmente, as características individuais, os elementos que tornam cada cultura única, são cada vez mais preteridos em lugar de um estilo de vida pastoso  — que atinge desde a arquitetura padronizada das cidades ao consumo desenfreado. São lugares que, nas palavras do arquiteto Zezinho Santos, remetem a um suflê de chuchu: não têm gosto de coisa alguma. Ao lado do marido Turibio, Zezinho já viajou para diversas partes do mundo, observando atentamente as particularidades de cada lugar que visitava. Punta Del Este, no Uruguai, lhe lembrou por alguns instantes Miami, mas com gratas surpresas, especialmente pela ausência de um estilo de vida plastificado tão comum na cidade norte-americana. Nos arredores uruguaios, conheceram a bela província de Maldonado. Enquanto viajantes, gostam de lugares com vida, identidade, como a desconhecida Namíbia. Dispensam o artificialismo encontrado nos Emirados Árabes. Em uma crônica de viagem feita especialmente para o RJ, Zezinho contou um pouco sobre essas experiências. Confira:

Em alguns aspectos, aquele local nos fez pensar em Miami. Não há coisa alguma que se possa fazer em Miami que não se possa fazer melhor em outro lugar. Praias? Há melhores em outros lugares. Restaurantes? Há melhores em outros lugares. Espetáculos teatrais? Há melhores em outros lugares. Museus? Há melhores em outros lugares. Shopping centers? Parques? Bares? Clubes noturnos? Idem, idem, idem, idem. Não que a cidade seja desagradável. Não é. Mas deixa a sensação de se comer algo pelas bordas. E, antes de fazer várias coisas pela metade em um único lugar, preferimos fazer de forma inesquecível e completa apenas uma ou duas coisas por vez. Em outro lugar.

Voltando ao que nos fez pensar em Miami. No início de julho estávamos, Turibio e eu, em Punta del Este, Uruguai. Há algo de delicioso em se fazer uma viagem durante a baixa estação. A praia estava vazia, as avenidas estavam vazias, a cidade estava vazia. O céu, azul, e a temperatura, em bem-vindos doze graus centígrados. Algumas vizinhanças, algumas esquinas e alguns prédios art déco lembravam Miami  —  e as associações terminavam por aí. Ausentes estavam as moças com metade de nossa idade e poucos recursos procurando por senhores com o dobro de nossa idade e muitos recursos. Não havia sinal de carros alemães ou de roupas italianas. Essas coisas só aparecem na alta estação. Em lugar de tudo isso, o prazer de se andar por calçadas todas nossas. E, mais ainda, o prazer de se vivenciar os arredores, a província de Maldonado. O farol em José Ignácio é lindo. Um passeio de carro pela Rota 9 não poderia ser uma experiência mais pictórica. Em seu quilômetro 175, os azeites de Colinas de Garzón. E, ao lado, o próprio pacato vilarejo de Garzón. Para acabar o dia, o restaurante O’Farrell, em Manantiales, comandado pelo casal Hubert e Pamela O’Farrell.

O que nos faz pensar em outro equívoco. Em janeiro, estivemos nos Emirados Árabes. Após ouvir tanto sendo dito sobre Dubai, precisávamos saber do que se falava. O resumo  —  foi bom ter ido, e por lá ter passado uma semana inteira, pois agora sabemos que Dubai é como um suflê de chuchu: não tem gosto de coisa alguma. Ela leva o paradigma da cidade da Flórida a um registro ainda mais insípido. No duro, no duro, Dubai é um grande aeroporto em meio a um imenso shopping. Há vários bons exemplos de boa arquitetura, é verdade. Mas não tem alma, nem sabor. A maioria das coisas é filial de matrizes europeias ou americanas. Melhor ir à matriz. Cem anos atrás era uma vila de pescadores. Hoje, pouco pode se ver de qualquer traço da cultura árabe. E, se é para ir ao Oriente Médio, é isso que procurávamos. Dubai, agora, apenas como uma escala a caminho de outras paragens. Como local de pernoite a caminho da Índia, ou do Camboja, vale a pena.

Mas aquela viagem não foi só de chuchu. A algumas centenas de quilômetros de distância, já no emirado de Abu Dhabi, há algo que realmente vale a pena  —  o resort Qsar Al Sarab, localizado no lendário deserto de Liwa, é uma experiência única. Daquelas de só podem ser realizadas naquele lugar, e em nenhum outro. O Liwa é um dos maiores desertos de areia do mundo, e uma das paisagens mais espetaculares que já vimos. O hotel está situado a pouca distância da fronteira com a Arábia Saudita, e sua existência em si já é um feito  —  em meio ao nada, ao se deparar com aquela estrutura magnífica, o visitante não pode deixar de se perguntar como conseguiram construir aquilo ali. E como deve ser difícil, em uma situação tão remota, manter impecáveis as acomodações, o serviço e a culinária. Com as dunas e o céu estrelado do deserto ao redor, aquela é Arábia que procurávamos.

Falando em deserto. Há o Kalahari, na Namíbia. E mais: a África do Sul é um país espetacular  —  certas coisas que lá se encontram são, de fato, únicas. Mas, se são aventuras, safaris e paisagens o que se procura, o que se encontra na Rainbow Nation não passa de experiências cosméticas. A África de verdade começa na Namíbia. Da costa em Walvis Bay ao deserto do Kalahari, da pacata capital Windhoek ao Etosha National Park, aquele é um país para se voltar de novo, e mais uma vez. Pouco que se escreva pode dar a mais remota noção. Assim, talvez melhor seja sugerir que se dê um Google em um dos muitos espetáculos da Namíbia  —  Mowani Mountain Camp. Vai lá, dá Google. Ainda não se convenceu? Tenta outra vez  —  The Mushara Outpost. Sabe aquela cena de abertura do musical O Rei Leão, com o sol nascendo? Aquilo existe. Na Namíbia. São por essas coisas que viajamos. Alguém se lembra da Collins Avenue?

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