MARIGOLD

MAIO  |  2018

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 06  .  edição 45
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Marigold

Não existe tal coisa como ponto final  —  há apenas o ponto em que se deixa a história. Passei quarenta anos fazendo faxinas, e os últimos meses de minha vida como co-gerente de um hotel do outro lado do mundo. Você não faz ideia agora do que se tornará amanhã. Não tente estar no controle. Deixa estar. É aí que a coisa se torna divertida … pois como uma vez ouvi alguém dizer, não há presente como o tempo.

Acordamos cedo naquela manhã. A ideia era a de, a partir de um barquinho sobre o Ganges, assistir ao nascer do sol em Varanasi  —  a nossa última parada em uma longa jornada pela Índia. A medida em que a neblina ia se dissipando, a já familiar cacofonia  —  tão parte da essência do que é mais indiano  —  nos abraçava: gente chegando, gente se banhando, gente orando, gente conversando, gente vendendo, gente comprando, gente lavando a roupa. Gente. Gente iniciando o dia, gente vivendo.  

Mais à frente, subindo o rio, a pálida luz alaranjada começava a delinear os contornos da Manikarnika Ghat, uma das muitas escadarias às margens do Ganges. E foi aí que vimos as fogueiras.

Saltando do barco, nosso guia nos tomou pela mão e nos guiou degraus acima, por entre pilhas de flores e de lenha, cinzas e oferendas. Em um pequeno recanto mais acima, uma fogueira estava preparada, mas ainda não acesa. Daí a pouco, um grupo de cerca de vinte pessoas  —  familiares e amigos, creio eu  —  chegaram carregando o corpo de um senhor na casa dos 70, talvez menos. As dificuldades da vida o podem ter feito aparentar mais idade. Deitando-o sobre a madeira, aquelas pessoas começaram a orar, a cantar baixinho, a realizar um ritual estranho, porém sereno. Muito sereno. As expressões não eram de dor ou de perda, mas de resignação e contentamento. Após uns dez minutos, atearam fogo.

Nunca pensei que algum dia veria, a apenas alguns poucos passos, um corpo humano em chamas. Olhei para aquele senhor, para aquele semblante sofrido e digno. No momento em que a sua barba começou a arder, virei o rosto e olhei para o rio. O sol subia por sobre a neblina.

Os hindus não enterram os seus mortos, eles os cremam. A Manikarnika Ghat é uma das duas escadarias em Varanasi onde se realizam cerimônias funerárias, e morrer em naquela cidade é motivo de grande alegria para os seguidores da religião: acredita-se que isso instantaneamente libertaria a alma do ciclo de vida e morte, da reencarnação. Diz-se que, ali, Shiva sussurra ao ouvido dos moribundos no momento da passagem, e assim velhos, enfermos e pessoas perto de seu fim aspiram a dar o seu último suspiro na cidade.

Na Manikarnika Ghat, as piras ardem dia e noite  —  mais de duzentas pessoas chegam a ser cremadas em um dia. Corpos envoltos em mortalhas de algodão amontoam-se por entre pilhas de toras de madeira, além de muitas marigolds, calêndulas, os cravos-de-defunto. Mais tarde, as cinzas são espalhadas no Ganges.

Olhando para o rio, lembrei de uma cena dos filmes O Exótico Hotel Marigold. Espeficiamente de uma  —  a cena final do segundo, em que a personagem de Maggie Smith, Muriel Donnely, se despede da história. É o monólogo dela que abre esse texto, acima, em itálico. Se você não assistiu, assista. Aos dois, o primeiro e o segundo. Compre a trilha a sonora, a passagem de avião e parta para a India.

E, como alguém diz em algum momento dos próprios filmes, nada pode preparar o viajante para a o soco no estômago que é uma visita àquele país. As cores, os cheiros, a comida, a música, os sons, as pessoas, tantas que são  —  um verdadeiro ataque aos sentidos.

Ao longo das semanas que ali passamos, não havia um dia em que não pensássemos, “e nós achando que já tínhamos visto de tudo”. A intrigante porta de entrada, Delhi. As fortalezas de Agra. O contraste exasperante em Jaipur, a serenidade etérea de Udaipur, a altivez cativante de Jodpur, com suas casinhas azuladas. A pulsasão de Mumbai, as linhas de trem, o fascínio trash de Bollywood. A guinada muçulmana em Hyderabad. A paz nas montanhas de Darjeeling, com suas colinas de chá aos pés dos Himalaias. Se da Índia algo ainda queremos, é mais, pois disso há muito.

Ah, sim, claro  —  e o Taj Mahal é lindo, lindo, lindo, além do que pode fazer jus qualquer fotografia. Mas é apenas o começo.

                                                      

                     

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