JAMAIS ENTENDEREI

junho  |  2016

 


 

  •  artigo publicado no Jornal do Commercio     —    14  .  junho  .  16
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Jamais Entenderei

Abri os olhos. O relógio sobre a mesa de cabeceira não era necessário para eu sentir que era tarde, bem tarde, quase meio-dia. No tom de voz que usamos apenas um com o outro, Turibio declarou “codá ” ? apontando que era hora de levantar ? , rolou na cama para o meu lado e, sorrindo, disse, “feliz Dia dos Namorados”. Enquanto eu tomava banho, ele arrumava a mesa para o café. Quando desci, havia pão, queijo e frutas ? além de espumante para misturar com o suco de laranja ? sobre jogos americanos em todas as cores do arco-íris. Anos atrás, durante um turbulento voo matinal e percebendo o meu nervosismo, a aeromoça ofereceu uma Mimosa, inaugurando assim uma tradição nossa para manhãs especiais.

Passamos para o sofá e, enroscados, começamos a assistir a um daqueles romances épicos de décadas atrás. No momento em que Karen Blixen estende a mão para Denys Finch Hatton, que pilota o biplano sobre as pradarias do Quênia, Turibio pegou a minha mão e a beijou várias vezes, como fazemos quando voamos. A noite caia quando o filme terminou. Fomos para a piscina e, com meia lua e algumas estrelas a espiar, nos amamos. E só então naquele dia, àquela hora, alcancei o telefone.

Na primeira vez em que estive em Orlando, a Disney era quase tão criança quanto eu. Eu tinha cinco, ela tinha pouco mais que um. Olhei para as estrelas sobre a piscina e pensei nas pessoas que estavam na Pulse naquela madrugada. A elas, a canção de Pinóquio: When you wish upon a star | makes no difference who you are | anything your heart desires will come to you.

Jamais entenderei porque, apenas pelo fato de sermos do mesmo sexo, o que fizemos, Turibio e eu, em um dia de domingo pode ser tão ofensivo para tantas pessoas. Jamais entenderei Omar Mateen. Ou Marcos Feliciano, Jair Bolsonaro, Silas Malafaia e Cleiton Collins. Ou Joelma, ou Vladimir Putin. Suas limitações jamais definirão minha condição. No mundo que essas pessoas conseguem enxergar de entre seus antolhos, algum motivo   ?   geralmente uma divindade torta   ?   proscreve que pessoas como nós possam ter um domingo como o de anteontem. Apontem suas armas ou disparem as suas palavras, todavia, nós vamos amar. Abra os olhos.

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