FALA, MEMÓRIA

abril  |  2016

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 04  .  edição 39
  •  acesse o artigo abaixo ou baixe o arquivo em formato PDF

 

Fala, Memória

A gente não tem saído muito, Turíbio e eu.

Gostamos de nossa casa — e a tratamos bem, esperando, quem sabe, receber de volta aquela preguiçosa sensação de aconchego que só o que é muito familiar consegue transmitir. Aquele calorzinho, assim como a sonolência gostosa que se sente após uma tarde inteira na praia, ao sol. A porta abre, a porta fecha, amigos entram, amigos saem — é bom observar o movimento das marés, e é ótimo voltar a se enroscar no sofá.

Uma noite dessas, há não muito tempo, estávamos recebendo um casal para jantar quando ouvimos a pergunta, como é que a casa de vocês tem tanta vida, tanto calor? Por que é que não conseguimos fazer o mesmo?

Quando foi a última vez que compraram algo novo para casa, perguntamos. Não nos lembramos bem, responderam.

Certo, mas nem ao menos em alguma viagem — algo decorativo, um souvenir, algo que os faça lembrar dos locais onde estiveram? Afirmaram, com um pouco de impaciência, preferir não carregar bagagem extra, ter que se preocupar com objetos frágeis, essas coisas.

A autobiografia de Vladimir Nabokov é linda. Editada originalmente em 1951, e intitulada Fala, Memória, a obra está longe de ser uma árida lista de nomes, datas e eventos. Ao contrário, trata-se de uma sensível e deliciosa sucessão de episódios através da qual pode-se chegar ao autor de forma muito mais clara e precisa.

Pois foi em Fala, Memória que pensei naquela noite, conversando com aquele casal de amigos. O que nos cerca em casa é tão eloquente sobre nós mesmos quanto qualquer coisa que possamos dizer. E mais — é eloquente não apenas para quem vem nos ver, mas igualmente para nós mesmos.

“Tratar bem a nossa casa” significa, para nós, alimentá-la com pedacinhos de nossa experiência, para receber de volta a vida e o calor que a memória produz. Aí é que mora a sensação de aconchego — percebida tanto por nós mesmos quanto por quem vem nos visitar.

E não está se falando de adquirir apenas peças decorativas e obras de arte com preço na faixa dos muitos zeros.

Em uma tarde de fevereiro uns cinco anos atrás estávamos em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. O tempo era de cartão-postal, céu azul e sol brilhando. O comportamento no trânsito era de Brasil: umas quadras à frente de onde estávamos, um motorista resolveu parar seu caminhão no meio da rua para descarregar. Ficamos presos dentro do carro. Olhei para o lado e vi uma barraquinha amarela. À venda, um monte de bonequinhos feitos com tampas de garrafa, botões, escovas de dente, embalagens vazias — até uma calculadora velha e um celular pré-histórico se juntavam para formar aquelas adoráveis figurinhas. Lá no meio, avistei dois rapazes de mãos dadas, colados a uma placa de compensado preto, na qual estava escrito “ele e eu: somos assumidos”. Baixamos o vidro na hora, e perguntamos quanto era. Vinte reais, respondeu um senhor. Ali mesmo, sem ao menos saltar do carro, presos em um engarrafamento, compramos a peça. Que é, claro — mais tarde entendemos —, de Getúlio Damado. E a banquinha, na verdade, era o bondinho. Amarelo com corações vermelhos.

Essa peça está pendurada na parede de nossa sala — e sim, ao lado de outras que não custaram exatamente vinte reais. Mas, junto com ela — e junto com cada uma das outras —, está o calor, a vida de uma casa. Está aquela tarde no Rio de Janeiro. Estão tantas outras tardes. Fala, memória.

+ ARTIGOS

Pin It on Pinterest

Share This