É SÓ UMA IDEIA

novembro  |  2014

 


 

  •  artigo publicado na Folha de Pernambuco    —    07  .  novembro  .  14
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É Só Uma Ideia

É só uma ideia”, diz a pessoa, “só um croqui”. Nem lembro mais quantas vezes ouvi essas palavras, sempre proferidas por gente que não deseja pagar pelo meu tempo nem pelo meu conhecimento profissional. Querem apenas “uma ideia”. Você imagina chegar a uma padaria e pedir “só um pãozinho”, achando que não vão cobrar por ele? Imagina visitar o supermercado e pedir “só um pacotezinho de margarina”, achando que não vai ter que passar pelo caixa? Já pensou em chegar à sua boutique favorita e pedir “só umas roupinhas, não precisa nem ser de grife”, e acha que não vão pedir o seu cartão de crédito? Pois as mesmas pessoas que não imaginam qualquer dessas situações acham-se confortáveis em pedir ao arquiteto “só uma ideia”.

Sabe o que ocorre? Eu, assim como o padeiro, o dono do supermercado ou da boutique, vivo do que vendo. E o que eu vendo, como arquiteto, são as minhas ideias. O papel, as várias plantas e as pranchas com o detalhamento são apenas a embalagem, o veículo. O produto em si são as ideias.

Tem mais: antes fosse o caso de muita gente ter algo contra profissionais liberais. Não é. Alguém chega a seu médico achando que não vai pagar pela consulta, quer através de seu plano de saúde, quer de forma particular? Se for ao serviço público, acha que o hospital se sustenta através de intervenção divina, e não com os nossos próprios impostos? Caso precise de um advogado, acredita que pode chegar ao seu escritório e pedir “só uma ajudazinha”, sem arcar com os honorários do profissional? A maioria das pessoas, certamente, sabe não ser possível. Então, mais uma vez, por que muitas delas se sentem à vontade para pedir “só uma ideia” ao arquiteto?

O fato é que, quanto menos esclarecida ou evoluída uma sociedade, menos valor se atribui às ideias. O cidadão acredita que deve pagar pela sua roupa, pelo seu sofá, pelo seu equipamento de som e pelo seu fogão. São coisas tangíveis, que ele pode ver, tocar e guardar. Mas ideias, talvez por imateriais, são “coisa fácil”, não custa nada ter uma, e podem ser dadas de graça.

Vamos à frente. Uma vez de posse da “ideia” do arquiteto, o sujeito sabe que terá que pagar pela hora do pedreiro, pelos materiais de construção, pelo engenheiro, pelo construtor. O produto, nesse caso, mais uma vez é tangível: a obra pronta. Mas por “só uma ideia, só um croqui”, por que pagar?

Saiba, todavia, que antes da roupa que você está vestindo, da cadeira onde você se senta ou do carro que você dirige, houve ideias. Para cada um deles, houve um desenho. Sabe esse celular que você segura e no qual digita o tempo todo? Houve uma ideia por trás dele. Para o tablet? Houve um croqui.

Finalmente, vamos imaginar mais uma situação. A pessoa entra em um restaurante, senta e pede um filé com fritas. Na hora em que o prato é servido, todavia, diz que mudou de ideia, que não era bem aquilo que queria, e que agora quer uma massa com queijo. Essa pessoa acha que o filé não estará na conta? Pois então, o equivalente a isso acontece corriqueiramente em escritórios de arquitetura. O cliente faz as suas solicitações, recebe o anteprojeto, o aprova integralmente e pede o executivo. Ao receber todo o detalhamento, entretanto, diz que mudou de ideia e agora quer algo totalmente diferente. Mas fica injuriado ao ser comunicado que terá que pagar pelas alterações. Afinal, é só papel, o que custa mudar tudo?

Custa o tempo, as horas de estudo e todo o investimento que o profissional fez para ter o domínio de seu ofício. Custa as suas ideias, que são o seu produto. Da próxima vez que alguém pensar em pedir a um arquiteto “só uma ideia”, que tal pensar duas vezes e não fazê-lo? É só uma ideia.

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