DAR NOME AOS GATOS

fevereiro  |  2003


 

  •  crônica publicada na revista Club    ano 03  .  número 37
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Dar Nome aos Gatos

O nome dos gatos é um assunto matreiro.

E não passatempo para entreter parentes

—  T.S. Eliot

Quando chegava do colégio, na casa em que meus pais ainda hoje moram, almoçava no que chamávamos de ‘salinha’. Na hora de estudar, levava meus livros para o gabinete de papai, uma pequena sala no primeiro andar, onde, à noite, ele geralmente trabalhava. Terminado o estudo, quando não saía para brincar, assistia à tv na sala da televisão  —  aquela, uma Telefunken sem controle remoto, lembram? Gostava também de gravar músicas em fitas cassete, a partir de discos de vinil, na mesa de som de mamãe.

Vivemos em um país grassado por vicissitudes sociais, feridas a nos lembrar que há muito que fazer: desigualdade, corrupção, violência, para mencionar não mais que algumas poucas das pústulas a marcar nossas faces de brasileiros. E paremos por aqui. Nesta nossa terra cortada pelo Trópico de Capricórnio, sob o azul e ensolarado céu que nos protege, há também garbo e galhardia, magnificência e motivos de alegria. Nosso humor, nosso sol, nossa música, nosso futebol, nossa língua. Sinto-me honrado em ter sido educado na Língua Portuguesa  —  sonora, acolhedora, expressiva, melodiosa. De seus meandros, não presumo conhecer mais que um pouco. Mas deste pouco muito me orgulho. E triste fico ao perceber que tão freqüente e banalmente ela é deixada de lado em troca de inócuos placebos verbais estrangeiros.

Se a minha infância hoje se passasse, talvez eu assistisse à televisão em um home theater, comendo pizza após discar para algum delivery da vida. O estudo, é claro, se passaria em um home office, e os professores particulares seriam magicamente transformados em personal alguma coisa. Meus brinquedos seriam comprados em Qualquer Coisa Apóstrofo Esse. Minhas roupinhas poderiam ter sido arrematadas numa sale, com não sei quantos por cento off. Mamãe compraria coisas para casa em Fulaninha Home, teria obras de arte by Sicraninha tal, e trabalharia numa maison feminina. Papai, como empresário, assistiria a seminários com coffee breaks, homens de negócios que não passam sem um bom brunch, para não falar das enfastiadas happy hours. Ainda criança, eu sonharia em algum dia ser arquiteto, e talvez poder projetar esses tais de home-coisas. O que são essas coisas? Qual a razão para elas? Por que fazemos isso com a nossa língua portuguesa?

Entendo que as línguas, os diversos idiomas, são estruturas de comunicação voláteis, que podem e devem mudar para se adequar a novos usos e costumes. Entendo também que, com o encurtamento das distâncias trazido pelos meios de comunicação em massa e pelas novas tecnologias da vida moderna, é natural que os vários idiomas dos mais diversos povos interajam de forma bem mais expressiva, enriquecendo-se saudavelmente uns aos outros. Longe de mim ser xenófobo, e detestar por detestar o que a outras nações pertence. A língua inglesa, a francesa, a italiana e a espanhola são belas e expressivas estruturas lingüísticas. Há casos em que o uso de uma palavra estrangeira justifica-se lícita e claramente. Novas tecnologias. Novos aparelhos. Uma alusão a alguma coisa, a algum lugar. Uma brincadeira, uma paródia, uma referência. No ato de dar nomes às coisas, pode e deve haver liberdade, interação entre idiomas, razões justas para tentar pronunciar o th.

Ainda assim, por que é que, na maior parte das vezes, parece que língua portuguesa é preterida por pura afetação? Pela simples noção de que a opção pelo vocábulo estrangeiro irá, de alguma forma, adicionar alguma qualidade a mais à pessoa, ao local ou ao objeto a que nos queremos referir? Um home office é melhor que um gabinete? Fulaninha Home vende produtos mais sofisticados que Fulaninha Casa? Sale é mais barato que liquidação? Off é mais chique? Personal é mais exclusivo? Creio que não.

E, em alguns casos, tais coisas são simplesmente risíveis. Home theater é uma abstração, até em língua inglesa. Para não falar de quando ela própria é usada com incorreção. Personal Stylist vira personal styler. Design é sempre confundido com designer e vice versa. E vem então a abusiva enxurrada do uso da forma possessiva da língua inglesa. Tudo tem apóstrofo esse, mesmo que não possua coisa alguma. Ora, dá um tempo.

Temos um lindo idioma, uma cadência, balançado que é mais que um poema. Lembro de uma loja da década de oitenta, a Maria João. Dois nomes tão nossos, tão magnificamente apropriados para designar os gêneros a que loja atendia. Sem maison, homme, femme, kids ou teen. Tiro o chapéu. Podemos, com toda propriedade e elegância, nos expressar em Português, sem medo de parecermos menores ou mais comuns.

É tarde, vou para casa. Tomarei banho em meu banheiro, ficarei um pouco na sala da tv, talvez ainda trabalhe um pouco em meu pequeno gabinete, jantarei na sala de jantar e irei dormir em meu quarto. E lembrarei que mesmo T. S. Eliot, quando em português, soa bem e acolhedor. Esta é minha casa.

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