CHOO - CHOO, HEY, BEEP - BEEP

agosto  |  2007


 

  •  artigo publicado na revista Class Casa    edição número 06
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Choo-Choo, Hey, Beep-Beep

Donna Summer ficaria encantada. Apresentada à recém-reformada orla da Avenida Boa Viagem, possivelmente de pronto teria a idéia de regravar ali, e em ritmo de bossa-nova, a versão 2008 do clipe de Bad Girls, sucesso na parada da década de 70. Uma releitura ainda mais matreira, dessa vez com banquinho e violão. Choo-Choo pra cá, beep-beep pra lá, talvez em dueto com João Gilberto. Já dá até para cantarolar, Hey Giba, have you a got a dime? Nem pau, nem pedra. O projeto de requalificação urbana da orla de Boa Viagem é mesmo o fim da picada.

Da forma como apresentada à imprensa alguns meses atrás, a obra que ora se inicia na Avenida Boa Viagem mais parece querer tornar o calçadão em um cenário perfeito para o trottoir de garotas e rapazes comercializáveis para fins sexuais. A associação parece-nos inequívoca: em alguma outra cidade do Nordeste, tão ou mais conhecida pelo turismo sexual do que a nossa, já vimos prostitutas e michês desfilar por calçadas semelhantes. O projeto que norteia as obras em Boa Viagem não parece querer individualizar a nossa orla, mas sim aproximá-la de tantas outras não particularmente desejáveis. Ademais, a vulgaridade de seus traços e cores consegue ainda um outro feito: o de materializar uma contradição em termos, a orla interiorana. Interiorana não no bom sentido, de tradições e culturas próprias do que é do interior, mas no mau sentido mesmo, de pouca instrução e falta de sofisticação próprias de quem passa a vida isolado em algum fim de mundo.

É de se admirar que uma administração municipal que tanto tenha feito de bom durante os seus primeiros anos pareça agora se esmerar em desfazer a imagem positiva que soube criar. A retirada do Recifolia da Avenida Boa Viagem e a inversão no sentido do trânsito da Avenida Conselheiro Aguiar foram ações corajosas e que de fato melhoraram a vida de quem mora ou trabalha naquele bairro da Zona Sul. A imaginar que continuaria seguindo essa linha, era de se esperar que tal administração chegasse ao fim de seu curso com a execução de obras e medidas marcantes, que poderiam a colocar na história como um dos períodos mais bem gerenciados da cidade.

Mas não. Primeiro, apresenta-se o Parque Com Aquele Nome. Para lá de se discutir a quem fazer uma homenagem, a quantidade de concreto, ou a qualidade da proposta do escritório de Oscar Niemeyer, o fato é que o projeto não tira partido do melhor que o terreno tem a oferecer: a vista para o mar. Ao entrar no teatro planejado para o parque, o visitante encerrar-se-á em uma sala em que pouca diferença faz a areia, o sol e o mar. Em outras palavras, o teatro poderia estar em qualquer lugar. Não se discute aqui o bem que um teatro faria ao bairro de Boa Viagem. Salas de espetáculo são bem-vindas e desejadas. Mas logo ali? Não haveria outro lugar para implantá-la? Não era um parque com área verde o que a população desejava para aquele local? Submersa em uma profunda rejeição por parte dos moradores do bairro, a administração municipal parte então para uma vistosa campanha publicitária, visando a convencer essas pessoas de que o projeto do parque é bom. Coloquemos assim: Alceu Valença cantando as maravilhas do parque na televisão é o equivalente a um síndico de condomínio que, acuado pelas críticas à sua administração, gasta dinheiro do próprio condomínio para convencer os moradores do prédio de que as suas obras são boas e necessárias. É pagar para convencer que se quer o que não se quer. Canta-se sob o sol, dança-se ao sabor das marés, e depois Alceu vai para casa. Em Olinda. Enquanto isso, o Parque Boa Viagem parece conseguir apenas adensar  —  ainda que metaforicamente  —  o tiroteio tão comum à beira-mar recifense.

Que se pode dizer então das obras de requalificação do calçadão? A coisa parece então desandar de vez. Começando mesmo pela terminologia. O que quer dizer a administração pública com requalificação? Que qualidades, exatamente, pretende-se alcançar? Requalificar pode ser, afinal, para melhor ou pior. Façamos uma pausa, e pensemos no Rio de Janeiro. O que seriam as calçadas da Avenida Atlântica sem as ondas em pedra portuguesa? Emblemáticas de uma cidade e de um modo de vida, ao longo de décadas elas passaram a fazer parte do imaginário público, tanto dos cariocas quanto dos turistas que por ali passeiam. As recentes melhorias realizadas na orla de Copacabana preservaram os desenhos, recuperando-os e a eles acrescentando equipamentos públicos bons, bem projetados e funcionais. Na cidade brasileira que mais parece bastião do desmando publico, a administração municipal conseguiu implantar uma obra que só tem o que acrescentar à infra-estrutura existente. A Avenida Atlântica continua com as suas ondas em pedra portuguesa, e por isso mesmo mais carioca do que nunca. A continuidade dos símbolos de uma sociedade, particularmente naquilo que têm de bom, é recomendável, quando não desejável. É assim nas curvas da Avenida Atlântica, nas palmeiras da Croisette, nas construções art déco de Miami. Aqui em Recife, quem é muito jovem ou pouco preparado e não sabia, passa a saber que houve um época em que Burle Marx era responsável por inúmeros jardins públicos.

O que há de errado então com as jangadinhas que adornam as calçadas de nossa orla? Mais do que sóbrias e elegantes, elas fazem tão parte do que é Boa Viagem quanto os coqueiros, os postos de salva-vidas retrôs, a areia branca e o mar azul. Isso porque nos representam, ao delinear uma embarcação e um modo de vida próprio do que é nosso. Por que retirá-las? Voltando à analogia com um condomínio, o que seria de um prédio em que cada síndico, ao assumir o seu mandato, desfizesse e destruísse tudo o que o anterior tivesse feito, sem considerações sobre o que é bom ou ruim, apenas para refazer de outra forma, não particularmente mais adequada? Alguns poderiam queixar-se das pedras portuguesas como desconfortáveis para o caminhar. Essa seria, todavia, uma questão de se repensar o material, não a concepção. Mas substituir algo tão nosso quanto a água-de-coco por umas curvas vulgares e toscas como as que são propostas no novo projeto? A calçada da Avenida Boa Viagem certamente não precisa de blocos coloridos de cimento. Precisa, isso sim, de organização, segurança e bom mobiliário urbano. Precisa estar livre do comércio desenfreado e ilegal, da má conservação e do parco saneamento, para servir então de equipamento de lazer digno do nome.

As obras agora em curso vão desfazer o pouco que o calçadão ainda tem de bom, para substituir por algo meramente vulgar. Esteticamente, o projeto assemelha-se ao visual de outras cidades praieiras mais associadas ao o turismo sexual do que à beleza urbana. Nada contra os profissionais do sexo, que se diga. Uma prostituta ou michê que comercialize o uso de seu corpo, vendendo-o a adultos esclarecidos por um valor pré-acordado, certo e sabido, tem muito mais dignidade do que, por exemplo, alguém que tem o seu salário pago pelo povo apenas para aparecer fazendo gestos obscenos na televisão. Além disso, esse comércio tem sido, reconheçamos, responsável por uma divulgação muito mais eficaz de nossa cidade no exterior do que a vasta maioria das iniciativas turísticas de anos recentes, públicas ou privadas. Pergunte a um motorista de táxi em Portugal sobre Recife e as chances de ele fazer referência a excelência da infra-estrutura, dos serviços e das atrações são parcas. Há muito mais chances que ele se lembrar das meninas. Ademais, o ofício dessa gente não difere muito daquele que vez por outra tem como palco a Madre de Deus ou a igreja do Monte dos Guararapes: as únicas diferenças são os valores envolvidos e os termos de uso. Nada especificamente contra, portanto, essas moças e rapazes. Mas a Avenida Boa Viagem nos parece um ambiente eminentemente de lazer familiar e não é lá que seria adequado tal trottoir.

Com a requalificação da orla, da forma como proposta, perde-se mais uma chance de se fazer algo que realmente importe. Algo que marque a nossa cidade, que a torne mais elegante e aprazível. Levando-se em conta que a administração pública, mesmo sob generalizadas críticas, levou a cabo a decoração do natal passado, podemos imaginar que de fato veremos concluídas as obras que hoje se iniciam na praia. Até o tubarão, ao olhar para a terra, terá vontade de colocar um top de strass e saltos plataforma. E quanto a nós, que, ao final, pagamos as contas? Resta-nos colocar os nossos ipods  —  preferencialmente imaginários, porque os reais seriam roubados  —  e ir caminhar pelo calçadão ao som da bossa-nova: choo-choo, hey, beep-beep.

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