ATRAVÉS DA PATAGÔNIA

agosto  |  2016

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 04  .  edição 40
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Através da Patagônia

Ainda bem que existe livro digital.

Na África, pode-se encontrar uma cópia de Out of Africa  —  o romance pastoral de Karen Blixen ? em qualquer livraria, quiosque de aeroporto, biboca na esquina. Achar Across Patagonia  —  o relato de viagem de Lady Florence Dixie  —  em qualquer lugar na Patagônia, todavia, é impossível. E eu tentei: no comércio, na recepção dos hotéis, com os guias, com as pessoas que conhecemos. Nada.

Ainda bem que se pode baixar uma obra literária no iPad  —  assim, em uma noite clara e com o vento uivando através das frestas na madeira de nosso chalé em Torres del Paine, pude começar a ler o texto publicado pela aristocrata britânica em 1880. Ainda prefiro o papel ? mas prefiro mais ainda poder ler uma obra sobre o lugar onde estou enquanto ainda estou no local.

Dixie deixou o conforto e a proteção de sua vida na Inglaterra para se tornar uma das primeiras viajantes a passeio na Patagônia, e isso em uma época em que a estada naquela terra, ainda hoje inóspita, era simplesmente desafiadora. Já na primeira página do livro Florence ganhou a minha atenção e admiração.

Assim ela justifica a escolha de seu destino:   ‘  Por que a Patagônia? Exatamente por ser um local inusitado e remoto. Exaurida com a civilização e com tudo que a cerca, queria escapar para um lugar tão removido de tudo e de todos quanto fosse possível. Muitos de meus leitores sem dúvida já devem ter sentido, em algum momento, a inquietude, a insatisfação que recai sobre nós  —  e sobre tudo o que nos cerca  —  quando, em meio aos afazeres cotidianos, nos cansamos com a artificialidade da vida moderna, com a sua superficialidade; quando o que antes nos instigava já não mais o faz; e quando o desejo cresce de provar uma emoção mais vigorosa do que aquela ensejada pela monótona roda dos assim chamados “prazeres” sociais. ‘

A tradução acima é livre, e minha. Quase um século e meio atrás, a autora falava em “artificialidade da vida moderna”, de sua superficialidade. Em nossa era de redes sociais e de “celebridades”, não poderia ter encontrado um livro com que me identificasse mais: era a leitura perfeita para aqueles dias. Para completar o êxtase que se sente com uma boa leitura, nas linhas seguintes Florence Dixie passa a descrever tudo que encontramos, Turibio e eu, na Patagônia:

‘ Foi assim que comecei a pesquisar por algum lugar que possuísse as qualidades necessárias para arrefecer a minha inquietude e, ao cabo, a Patagônia me pareceu o local mais adequado. É certo que há paragens selvagens bem mais favorecidas pela Natureza. Mas não há lugar em que uma pessoa possa sentir-se tão completamente isolada quanto na Patagônia. Em nenhum outro local há tanta área para se galopar, e onde, aproveitando-se de um clima saudável e revigorante, pode-se estar a salvo de amigos, família, febres, tribos selvagens, animais obnóxios, telegramas, cartas e todos os outros incômodos a que se pode estar sujeito em outros lugares. ‘

A essas alturas, já estava fascinado com Lady Dixie. Continuando:

‘ A esses atrativos adicione-se a possibilidade  —  sempre atraente para a mente ativa  —  de que também eu pudesse ser capaz de desbravar as grandes pradarias selvagens, e pisar em solo até então virgem ao caminhar da humanidade. Paisagens de infinita beleza e grandeza escondidas na solidão das montanhas, em locais onde ninguém ainda se arriscou ir. Seria eu a primeira a ver essas paisagens?  —  prazer egoísta, é verdade; mas a ideia era bastante atrativa para mim, assim como já foi para tantos outros. E então, influenciada pelas considerações acima, decidi que a Patagônia seria o local para as minhas novas aventuras. ’

Em nosso chalé no alto da montanha, com o vento  —  o vento, sempre ele  —  uivando através das frestas nas paredes de madeira, admirei pela janela o luar sobre a pradaria. E, como uma criança, fiz um pedido a uma estrela  —  para que guardasse e protegesse pessoas que escrevem como Florence Dixie. Para que preservasse locais como a Patagônia. O sul das Américas é tudo e muito, muito mais do que está no livro.

Ainda que não quisesse que aquela noite acabasse, voltei para cama e, antes de dormir, terminei de ler o primeiro capítulo de Across Patagonia, em que Dixie narra a chagada à América do Sul, a bordo do Britannia:

‘ Nós chegamos a Pernambuco no dia 28 de dezembro, mas preferimos não descer do navio, pois atracaríamos no porto por apenas duas horas, e nos disseram, além do mais, que não havia nada para se ver por ali. Ficamos nos distraindo a observar a chegada de novos passageiros, brasileiros, que embarcavam a caminho do Rio. A riqueza no trajar dessas pessoas poderia rivalizar com a de Salomão “em toda a sua glória”  —  mas cartolas, fraques e calças brancas parecem-me ridiculamente fora de propósito a bordo de um navio. Não menos engraçada era a efusividade de suas afetuosas despedidas. Ao partir, abraçavam os amigos apertadamente, trocando beijos da maneira mais patética, e evidenciando uma ausência de falsa vergonha na presença de nós, expectadores, que era tão edificante quanto encantadora. Autre pays, autre moeurs.’

Ainda bem que existe livro digital.

 

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