APAGARAM TUDO

novembro  |  2007


 

  •  crônica publicada na versão on-line da revista Club
  •  acesse o artigo abaixo ou baixe o arquivo em formato PDF
Apagaram Tudo

Pintaram tudo de cinza. Ou pelo menos foi assim que eu me senti em fevereiro passado, quando, no domingo de carnaval, fraturei a rótula esquerda. Nunca havia fraturado nada. Talvez o juízo, mas nada assim em pele e osso. Estava esquiando no rio Timbó, em Maria Farinha, e um tronco de árvore, flutuando na água, fez-me cair e quebrar a patela. Achei muito esquisito. Vá lá que ouvi dizer que a carne é fraca, mas precisava ser fraca assim? De uma hora para outra, tornei-me dependente. Dependente mesmo, para tudo, de tomar banho a subir uma escada, de me vestir a me deslocar para o trabalho. Odiei.

Em casa, contudo, encontrei apoio e carinho além de qualquer razão. Em meu médico, razão, razão mesmo, essa a que se chama de juízo. Colocaram-me uma tala metálica na perna, presa por velcros. Odiei também, era podre. E o meu médico teve a paciência de me avisar que não, não havia nenhum equivalente em couro, com fivelas, preferencialmente da Prada. Tentei Louis Vuitton, mas também sem chance. Assim, então, com velcros, muletas e cadeira de rodas, saí por aí. E comecei a gostar.

A vida ficou outra coisa. Sorrisos, delicadezas, gentileza por todos os lados. Essa pode não ser a experiência de todos nessa condição, mas certamente foi a minha. Bastava entrar em um lugar, e as pessoas abriam um sorriso gentil, davam passagem, pediam licença, ajudavam, cediam, se importavam. Onde estava tudo isso antes, pensei? Quase que me mal acostumei. Não desejo o que me aconteceu a ninguém, nem quero aqui diminuir a provação que deve ser viver em uma situação como aquela a vida toda, mas estava até gostando da coisa. Gentileza em toda parte. Ou quase.

As exceções só não foram mais infames porque, em alguns casos, eram esperadas. Do estado  —  assim sem capitular mesmo, corroboro a Veja  —  nada mais espero. Nem educação, nem transporte, nem segurança, e muito menos saúde. E exatamente por não esperar, tenho plano há mais de dez anos. É um plano executivo, da Sul América, que atualmente me custa 564,77 reais mensais. Quase não dou trabalho: em todos esses anos não precisei de mais que um hemograma aqui, outro lá. Quando finalmente precisei, qual não foi a surpresa em constatar que também na iniciativa privada deve-se manter um pé atrás. Bem, não exatamente surpresa: sempre ouvi falar das arengas entre clientes e seguradoras.

Na segunda feira, 19 de fevereiro, me submeti, por prescrição médica, a uma tomografia computadorizada na perna. Na quinta feira, 15 de março, voltei ao hospital, também por solicitação médica, para uma nova tomografia. O plano negou, alegando que ela não era necessária com menos que trinta dias. Ora, eu não estava ali no hospital me divertindo, achando o máximo fazer o exame. Estava porque o médico achou o procedimento necessário para acompanhar a minha recuperação. Ao telefone, como se atreve a burocratazinha da seguradora achar-se acima da ordem médica, estabelecendo o que é ou não adequado em um tratamento? Mais honesto seria apenas dizer, olha, você paga uma mensalidade cara, mas nem assim vai ter de nós o que o estado não te oferece. Fiz o exame de qualquer forma, porque tinha a sorte de contar com a amizade do médico no hospital. Gentileza.

As semanas se passaram, nove ou dez no total, e fui me recuperando. Comecei, ainda com muletas, a colocar a perna esquerda no chão. Abandonei uma muleta, tirei a tala metálica duas semanas depois  —  nunca mais quero ouvir falar de velcros  —, passei a fazer fisioterapia. Pelas ruas, pelas lojas, no cinema, no restaurante, seguiam-se as gentilezas. Às vezes achava que o mundo inteiro tinha tido uma extraordinária noite de sexo na véspera, tamanha a radiância dos sorrisos que encontrava pelo caminho. Por favor, pode passar, você primeiro, deixa que eu abra a porta.

Ao final da recuperação, lá pela oitava semana, precisei viajar. Fui a Milão, visitar o Salão do Móvel, algo necessário em minha profissão. Consultei o médico antes, e ele disse que eu podia ir. Ainda estava com uma das muletas, já que a musculatura da perna estava muito, muito fraca, o que me fazia andar instavelmente. Durante a viagem, prosseguiram as gentilezas. Até as aeromoças da TAP, que não são exatamente assim umas Audreys, esforçavam-se para tornar a minha acomodação no avião mais agradável. Uma beleza. Até que apareceu a segunda exceção. De volta ao meu país  —  onde mais  —, cheguei ao aeroporto com a minha mala de roupas, e uma sacola volumosa. Nela, uma luminária em acrílico, dessas que estão na moda, e que custou 275 euros  —  nada fora do limite do que se pode trazer. A caixa era grande, mas era apenas isso. Nada mais havia em minhas compras. Dirigi-me à alfândega, com certa dificuldade, e com a ajuda de minha muleta. A agente da receita olhou-me diretamente nos olhos e tascou: “está de mudança, é?” Ela não me deu boa tarde, ela não percebeu minha dificuldade em andar. Apenas me fitou com certo cinismo, e continuou: “o que tem aí dentro?”. Uma luminária italiana, mas é em acrílico, e barata, respondi. Ela então reuniu todo o sarcasmo que conhecia e retrucou: “ah, é, é? Na Itália também tem umas luminárias muito caras, viu?”, e me mandou prosseguir para a abertura das malas. Ainda sem um boa tarde, e muito menos um por favor. Está certo que aquela senhora está no papel dela: uma fiscal da receita tem que averiguar, tem que checar se as pessoas estão entrando no país com mais do que é permitido. Mas a fiscal não tem o direito de presumir que a pessoa o está fazendo, e muito menos de ser cínica ou sarcástica. Tem, isso sim, o dever de começar com um boa tarde. Será que esquece quem lhes paga o salários, e a quem serve? Abri a mala, mostrei a nota, e enterrei o prazer da fiscal. E espero que ela continue para sempre ali, sendo cínica com pessoas que chegam de lugares que ela nunca vai conhecer.

As semanas se passaram, assim como a fratura e a imobilização. A gentileza também. Não que se possa generalizar assim, há pessoas gentis. Mas o que fica, para mim, após uma fratura de rótula, é a esperança de que algum dia tratemos uns aos outros, não importa se saudáveis ou com alguma deficiência, com a gentileza que encontrei naquelas semanas. E a canção que teimava em não me sair da cabeça: nós que passamos apressados pelas ruas da cidade merecemos ler as letras e as palavras de gentileza.

+ ARTIGOS

Pin It on Pinterest

Share This