AOTEAROA

fevereiro  |  2011

 


 

  •   artigo publicado na revista Let’s Go Pernambuco  —  ano 01  .  número 02
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Aotearoa

As portas não tinham chaves. Não em apenas um, mas em três dos hotéis visitados as portas dos apartamentos não tinham chaves. Havia apenas uma tranca interna, para garantir, quando necessária, a privacidade. Ao sair, o hóspede apenas as encostava. E podia deixar tudo, tudo mesmo, qualquer coisa, em seu apartamento. Estaria tudo lá quando retornasse. Até dinheiro. Em espécie. Exposto, sobre a mesa de cabeceira.

Ao sair para passear, esse mesmo turista podia andar despreocupado pelas ruas. Elas eram limpas, com calçadas adequadas, arborizadas e sem fiação aérea. A bolsa poderia estar a tiracolo, contendo o que contivesse, sem maiores atenções. Ninguém tiraria nada dela. O transporte público funcionava, e era igualmente limpo, além de capilar. Ao chegar a um restaurante, o visitante poderia deixar a bolsa ou a carteira sobre a mesa e ir ao toalete: seus pertences estariam lá quando voltasse. Enquanto dava uma olhada no cardápio, o turista brasileiro mais atento poderia perceber que raramente ouvia o toque de um celular. E, se ouvisse, a chamada seria rapidamente atendida pelo proprietário do aparelho, que se levantaria de sua mesa e iria conversar  —  em voz baixa  —  na calçada. Teria consciência, afinal, de que os outros clientes do restaurante nada tinham a ver com a sua conversa, nem razão para serem importunados. Lá fora, aliás, poderia ficar conversando ao telefone na calçada por horas, mesmo à noite: de certo não seria assaltado.

As pessoas que atendiam o tal turista em hotéis, bares, restaurantes e lojas eram atenciosas, educadas, interessadas e prestativas. Elas tinham consciência, claro, de que o turismo é hoje a maior fonte de renda de seu país. E esse país é Aotearoa  —  a Nova Zelândia de nossos mapas escolares. Com 268.000 km2 de área  —  um pouco menos que dois Pernambucos  —, e com uma população de quatro e meio milhões de habitantes, a Nova Zelândia recebe anualmente dois e meio milhões de turistas estrangeiros. E a razão para isso é uma só: além da beleza natural, aquele pequeno país nos confins da Terra tem uma gente educada e honesta, uma infra-estrutura impressionante e eficiente, cidades limpas e seguras, além de uma campanha de divulgação firme e sincera.

Todas as situações acima, sem exceção, foram vividas por nosso pequeno grupo no início desse ano. E o mais impressionante é que os Neozelandeses construíram tudo isso em pouco mais que dois séculos de história. A cidade do Recife, em quase quinhentos, não chegou nem perto. É triste, mas melhor que seja encarado: hoje, a nossa cidade sequer tem hotéis dignos do nome. O melhor hotel recifense está, na verdade, na área de Muro Alto | Porto de Galinhas …  Na Nova Zelândia, eles estão em todo lugar: albergues, pensões e hotéis, econômicos ou de luxo, mas sempre honestos, limpos e confortáveis.

A beleza natural, nós temos. A cultura, também. O que nos falta para sabermos nos vender  —  e de forma convincente  —  ao turista estrangeiro? Certamente não seriam as peças de propaganda hoje em uso. Raramente se vê, no exterior, uma peça de propaganda turística do Brasil – e de Pernambuco  —  sem uma morena seminua rindo para a câmera. É de se estranhar, pois, que recebamos inúmeros taxistas europeus tarados, atrás de turismo sexual? O quê exatamente se pretendia vender com aquilo?

Essa comparação é feita não em demérito do que somos ou do que representamos, mas para que percebamos do que somos capazes: vamos lá, Pernambuco!

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