AO SABOR DAS ONDAS a

agosto  |  2007


 

  •  artigo publicado no Jornal do Commercio    —    25  .  agosto  .  07
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Ao Sabor das Ondas

Donna Summer ficaria encantada. Apresentada à recém-reformada orla da Avenida Boa Viagem, possivelmente teria a idéia de regravar ali, e em ritmo de bossa-nova, a versão 2008 do clipe de Bad Girls, sucesso na parada da década de 70. Choo-Choo pra cá, beep-beep pra lá, banquinho e violão, talvez em dueto com João Gilberto. Nem pau, nem pedra. O projeto de requalificação urbana da orla de Boa Viagem é mesmo o fim da picada. A obra que ora se inicia parece querer tornar o calçadão em um cenário perfeito para o trottoir de garotas e rapazes comercializáveis para fins sexuais. A associação parece inequívoca: em alguma outra cidade do Nordeste, tão ou mais conhecida pelo turismo sexual do que a nossa, prostitutas e michês desfilam por calçadas semelhantes. O projeto não parece querer individualizar a nossa orla, mas sim aproximá-la de tantas outras não particularmente desejáveis. Ademais, a vulgaridade de seus traços e cores sugere uma contradição em termos, a orla interiorana. Interiorana não no bom sentido, de tradições e culturas próprias do que é do interior, mas no mau sentido, de pouca instrução e falta de sofisticação próprias de quem passa a vida isolado em algum fim de mundo.

É de se admirar que uma administração municipal que tanto tenha feito de bom durante os seus primeiros anos pareça agora se esmerar em desfazer a imagem positiva que soube criar. A retirada do Recifolia da Avenida Boa Viagem e a inversão no sentido do trânsito da Avenida Conselheiro Aguiar foram ações corajosas e que de fato melhoraram a vida de quem mora ou circula pelo bairro. Era de se esperar que tal administração chegasse ao fim de seu curso com a execução de obras e medidas marcantes, de qualidade definida.

Mas não. Primeiro, apresenta-se o tal parque. Para lá de se discutir a quem fazer uma homenagem, a quantidade de concreto, ou a qualidade da proposta do escritório de Oscar Niemeyer, o fato é que o projeto não tira partido do melhor que o terreno tem a oferecer: a vista para o mar. Não seria o briefing equivocado? O que dizer então das obras de requalificação do calçadão? A coisa parece aí desandar de vez, já na terminologia. O que quer dizer requalificação? Que qualidades pretende-se alcançar? Requalificar pode ser, afinal, para melhor ou pior. Pensemos no Rio de Janeiro. O que seriam as calçadas da Avenida Atlântica sem as ondas em pedra portuguesa? Emblemáticas de uma cidade e de um modo de vida, ao longo das décadas elas passaram a fazer parte do imaginário público, tanto dos cariocas quanto dos turistas que por ali passeiam. As recentes melhorias realizadas na orla de Copacabana preservaram os desenhos, recuperando-os e a eles acrescentando equipamentos públicos bons, bem projetados e funcionais. Na cidade brasileira que mais parece bastião do desmando publico, a prefeitura conseguiu implantar uma obra que só tem o que acrescentar à infra-estrutura existente. Copacabana continua com as suas ondas em pedra portuguesa, e por isso mesmo mais carioca do que nunca. A continuidade dos símbolos de uma sociedade, particularmente no que têm de bom, é recomendável, quando não desejável. É assim no Rio, nas palmeiras da Croisette, nas construções art déco de Miami. Em Recife, quem é muito jovem ou pouco preparado, e não sabia, passa a saber: houve uma época em que Burle Marx era responsável por vários jardins públicos. É, saiba-se, de outra qualidade.

O que há de errado com as jangadinhas que adornam as calçadas de nossa orla? Mais do que sóbrias e elegantes, elas fazem tão parte do que é Boa Viagem quanto os coqueiros, os postos de salva-vidas retrôs, a areia branca e o mar azul. Isso porque nos representam, ao delinear um modo de vida próprio do que é nosso. Por que retirá-las? As pedras portuguesas são desconfortáveis para o caminhar? Repense-se, pois, o material, não a concepção. Mas substituir algo tão nosso quanto a água-de-coco por umas curvas vulgares e toscas como as que são propostas no novo projeto? A calçada da Avenida Boa Viagem não precisa de blocos coloridos, mas sim de organização, de segurança e de bom mobiliário urbano, de estar livre do comércio desenfreado e ilegal, da má conservação e do parco saneamento. Com a atual reforma, perde-se mais uma chance de se fazer algo que realmente importe, que marque a nossa cidade e que a torne mais elegante e aprazível. Levando-se em conta que a administração pública, mesmo sob generalizadas críticas, levou a cabo a decoração do natal passado, podemos imaginar que de fato veremos concluídas as obras na praia. Até o tubarão, ao olhar para a terra, terá vontade de colocar um top de strass e saltos plataforma. Resta-nos colocar os nossos ipods  —  preferencialmente imaginários, porque os reais seriam roubados  —  e ir caminhar pelo calçadão ao som da bossa-nova: choo-choo, hey, beep-beep.

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