ANIVERSÁRIOS SEM CHABU

agosto  |  2003


 

  •  crônica publicada na revista Club    ano 03  .  número 40
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Aniversários sem Chabu

Nos últimos dois meses, muitas foram as pessoas queridas que fizeram aniversário. E, ainda que ache estranho festejar o fato de que nossas células estão se reproduzindo mais vagarosamente a cada ano, celebrar é o que usualmente fazemos nas datas de aniversário.

É interessante notar que, desde tempos longínquos, a celebração destas datas tem significado e propósito próprios. Em épocas menos esclarecidas, as pessoas temiam os maus espíritos. E acreditava-se que, nas datas de aniversário, os espíritos malignos tornavam-se ainda mais perigosos. Para proteger a pessoa que estivesse completando anos, a família e os amigos reuniam-se em torno do aniversariante, cercando-o com alegria e bons desejos, e assim preservando-o das entidades nefastas. Mesmo que desejar o bem de quem completa anos fosse o melhor presente que se poderia dar, o ato de trazer um presente, ao encher de alegria o aniversariante, servia como mais uma arma no afugentamento de maus espíritos. Esta é a origem e o significado do ato de dar um presente de aniversário. É um ato que nos fala de alegria aqui e agora, na data do aniversário, com o objetivo de dar satisfação e prazer ao aniversariante.

Em nossos tempos modernos, na falta de maus espíritos, a alegria e o carinho transmitidos na entrega de um presente podem afastar de nossa mente, ao menos momentaneamente, coisas não menos malignas. Como, por exemplo, o fato de que nossos cabelos, sem tintura, já não exibem a cor natural. De que nossos dentes, sem clareamento, idem. De que nossa cintura, sem controle, já não permite enxergar os pés. De que criaturas ainda com acne no rosto nos chamam de tio. De que criaturas já sem acne no rosto, sem-vergonhas que são, nos chamam de tio, ora veja! Pergunte a qualquer mulher se ela pensa em celulite ao receber aquela caixinha com a etiqueta de sua joalheria favorita. Sem chance, não é?

Deixemos, portanto, os maus espíritos. Aniversários são ocasiões de e para celebração. Celebração na data e na hora. E, para poder celebrar com pessoas queridas, percorremos as lojas atrás daquele presente especial. Aquele algo mais que deverá trazer alegria para quem recebe. E, por que não, para quem dá.

Com o presente debaixo do braço, rumamos para a festa, ansiosos por ver nosso amigo ou parente querido abrir o embrulho. Saltamos do carro, abrimos a porta, e… E não é que aparece um mau espírito? De algum canto obscuro salta uma criatura desconhecida que nos tira o presente das mãos, anota o nosso nome no pacote com uma caneta, e desaparece sorrateiramente para lugar não sabido. Quando encontramos o aniversariante, nada mais temos nas mãos.

Essas criaturas, contratadas pelos cerimoniais de festas de aniversário, devem de ser os maus espíritos modernos. E olhe que, geralmente, elas se vestem de preto, como bem cabe a um mau espírito. Toda vez em que vou ao aniversário de um amigo e um desses seres de mim se aproxima, tenho vontade de lhe gritar “vade retro”, saltar-lhe no pescoço, e tomar de volta o meu presente. O cerimonialista que inventou essa firula de etiqueta deve ter sido uma criatura muito mal presenteada em vida.

Quando chego ao aniversário de uma pessoa querida, quero entregar-lhe em mãos o meu presente, e olhar em seus olhos na ora em que ela o abrir. Quero compartilhar esse momento de felicidade, como sempre foi e deve ser. Pois eles não podem ser reproduzidos em outra hora. Não é com o aniversariante abrindo o presente no dia seguinte, a sós, que o mesmo carinho e emoção serão transmitidos. O máximo que as criaturas de preto, nefastas que são, deveriam fazer, é estar a postos, retirando das mãos do aniversariante o presente já aberto e apreciado, e guardando-o em algum lugar seguro, para evitar que um outro convidado, sem querer, dele se apodere. Mas por algum desígnio obscuro elas desaparecem com o presente antes que eu possa jogar-lhe água benta na cara.

Desapontado, cumprimento o aniversariante e abro meu caminho por entre duas bandejas de canapés. Talvez ainda possa desejar algo de bom na hora dos parabéns.

E não é que, nesta hora, acabo estupefato e calado com o que vejo surgir em cima do bolo? Quem foi que disse que bolo de aniversário é estande de propaganda dos fogos Caramuru? Que diabo inventou de trocar as antigas velas de aniversário por vulcões e estrelinhas? Como pode um aniversariante se curvar sobre aquele inferno para fechar os olhos e fazer um desejo? Acabará, de certo, no Hospital dos Queimados, o coitado. E, quando não os fogos Caramuru, aparecem aquelas infames velas que anunciam, por extenso, a idade do aniversariante. Dois grandes numerais, assim: 3 2. Em outra ocasião, vejo um senhor de uns cinqüenta e lá vai tapa apagando uma única e solitária velinha. Já que ele não pode estar completando um ano, estaria completando uma década? Ou um século?

As velas deveriam ser velas, e no número exato de anos que o aniversariante está completando. Quando eu fizer quarenta anos, quero um bolo com quarenta velinhas, para fechar os olhos e apagá-las, desejando não mais encontrar as criaturas de preto que surrupiam presentes de aniversário.

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