ALWAYS A PERFECT DAY

outubro  |  2013

 


 

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Always a Perfect Day

O dia  —  aquele dia  —  foi 10 de junho de 2007. Mas me adianto na história, e tenho que fazer uma pausa. Como Denys Finch Hatton, gosto de histórias bem contadas. Assim, antes de falar daquele dia, devo falar de dias mais próximos no tempo. Devo falar do final de semana passado. Estava em um lugar tranquilo  —  um lugar querido, e tão próximo ao meu coração, tão próximo, que às vezes penso que aquelas terras são mais eu do que eu mesmo.

As coisas hoje em dia nos encontram onde quer que estejamos. Por e-mail, por correio, por celular, por Instagram. A verdade chega, e não bate à porta. Sábado recebi um e-mail de uma pessoa que não conheço, mas que continha uma mensagem de uma querida amiga holandesa. Ela havia partido, na quinta, por decisão própria e de livre vontade. Não estava mais conosco. E deixava uma mensagem agradecendo pela nossa amizade. E eu que pensava que tinha recebido todo tipo de e-mail. Não tinha. Deus abençoe, e que você fique em paz. Espero que esteja com as Orcas, a quem tanto amava, ou vendo uma aurora boreal mais reluzente do que qualquer uma que tenha visto na Terra.

Domingo. À mesa, uma poucas pessoas  —  e, entre elas, Madá. A vida vale a pena. Penso nisso olhando o seu rosto sorridente do outro lado da mesa, cantando parabéns para Newman, seu marido. E foi pelo Instagram de Madá que tomei conhecimento da partida de Lou Reed. Por que partem as pessoas que fazem a vida valer a pena? A vida, aliás, parece ficar menor à medida que avançamos. Menor em tempo e, mais ainda, em conteúdo.

Lembro então do artigo que escrevi uns anos atrás. O artigo que está abaixo. O que me leva de volta a 20 de junho de 2007. O que tem a letra de Perfect Day, de Lou Reed. Penso que a gente não sabe se vai ou se fica. Deus abençoe Lou. E a todos nós. Um Dia Perfeito faz, mais do que nunca, sentido. I’m glad I’ve spent it with you.

Um dia perfeito

A gente sabe assim que acorda: quando um dia vai ser perfeito, ele se anuncia. E aquele foi um dia perfeito.

Manhã de domingo em São Paulo, quatorze graus centígrados, céu encoberto. Tudo cinza, e aquela luz peculiar, como se alguém houvesse posicionado um enorme difusor sobre a cidade. Para mim, para quem sol e calor são coisas interessantes apenas no canal da National Geographic, e ainda assim com o ar condicionado no máximo, a manhã como epítome da perfeição meteorológica. Quando saltamos do carro na rua lateral ao Mercado da Cantareira, meu iPod imaginário tocava Perfect Day, de Lou Reed: just a perfect day / problems all left alone / weekenders on our own / it’s such fun…

Sentamos, Turíbio e eu, a uma pequena mesa no mezanino do mercado, debruçada sobre o alvoroço lá embaixo. Expressos e sanduíches à frente, éramos dois entre tantos, tanta gente em todos os lados, tantos cheiros, tantas vozes. Mal reconhecia o local, amplamente restaurado, reluzente na luz difusa, tão cheio de vida, tão cheio do novo de sempre. Oh it’s such a perfect day / I’m glad I spent it with you…

Daquele senhor, a primeira coisa que vi foram os pés, delicadamente cruzados um sobre o outro. Levantei os olhos, para ver o cós de uma calça desconcertantemente fashion, da qual pendia um chaveiro estranhamente feminino. Levei o olhar para as mãos, delicadas, tratadas, e que gesticulavam languidamente, pontuando uma fala macia. Com seus sessenta e tantos anos, o senhor, sentado à mesa a nossa frente, tomava café com a família: a esposa, meio apática, um filho, inexpressivo em seus trinta e poucos, uma nora, atarefada demais com a comida para se importar, e duas netas, alegres em sua inocência. Ou pelo menos foi essa a configuração familiar que apreendi das feições, e da maneira com que tratavam uns aos outros. Voltei novamente meu olhar para o senhor, que agora nos olhava com perplexidade. Meu olhar cruzou com o seu. O reconhecimento entre iguais é imediato, mas invisível aos olhos de uma família que não quer ver. Ou que não se dá ao trabalho. Just a perfect a day / you’re going to reap just what you sow… Você vai colher o que plantou.

Terminamos nosso café, e descemos para o mercado. Todas as manhãs do mundo são sem volta. Pinholes, pimenta de cheiro, tomates secos, fundos de alcachofra. Parte para nós, parte para nossa querida amiga Madá. A última vez em que estivemos lá, aliás, ela estava conosco, querida que é. Com nossas pequenas sacolas, tomamos o carro rumo ao MASP. Mais estandes para explorar, desta vez contendo pedacinhos, lembranças, cacos de outras épocas, de outras pessoas, de outros lugares. Início de tarde, mas ainda quatorze graus no termômetro da Paulista: a glória. Um calafrio percorreu minha espinha, embora de uma natureza totalmente diferente: espalhados sobre o tabuleiro a minha frente, carrinhos de ferro exatamente iguais aos que eu tinha algumas décadas atrás, quase ali, quase ontem. Tous les matins du monde c’est sans retour. Mais à frente, compramos um peso de papel, e mais um cinzeiro em acrílico, de dois senhores muito distintos, e muito bem casados. Um com o outro.

À frente, e seguimos para o MUBE, onde outra feirinha de antiguidades nos aguardava. E depois para o Instituto Tomie Ohtake, onde uma considerável quantidade de preciosidades modernas é guardada. Just a perfect day / drink sangria in the park… E então, um filme, no Iguatemi, seguido por um jantar, no início da noite, naquele nosso preferido e pequeno restaurante. Then later, a movie, too / and then home… Foi um dia perfeito, e fico feliz que o tenhamos passado juntos.

Passar um dia assim com a pessoa que se ama é algo que a ninguém devia ser negado, em qualquer hipótese ou sob qualquer argumento. Nenhuma pessoa — parente, amiga, conhecida ou estranha — tem o direito de nos negar um dia como esse. Nenhum conceito, preconceito, idéia, dogma ou doutrina. Nenhuma autoridade, nenhum político, nenhuma lei. Nenhum papa, nenhum mulá, nenhum rabino, nenhum pastor. Nenhuma religião, fé ou crença. Simplesmente porque a vida é maior que qualquer um deles, por mais que queiram negar, por mais que não queiram ver.

Ao deitar, já em casa, lembrei do senhor no mezanino do mercado, naquela manhã. Terá tido ele o seu dia perfeito? Seu olhar me diz que não. Você vai colher o que plantou.

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