ABAIXO DE ZERO

março  |  2017

 


 

  •  artigo publicado na Terra Magazine  —  ano 05  .  edição 42
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Abaixo de Zero

Achei que havia alguma coisa errada com os meus olhos. Algo turvava a minha visão, e incomodava. Voltando-me para Turíbio, perguntei se ele percebia qualquer coisa anormal. “Suas pestanas acabaram de congelar”, disse ele.

Em pé sobre as águas geladas do rio Torne, sob um céu azul e com o sol brilhando, a temperatura era de – 29°C. Sim, negativos. Lembrei que, quando dissemos a alguns amigos para onde iríamos em pleno inverno, recebemos de volta expressões de espanto, quando não palavras abertamente desencorajantes. Alguém perguntou se estávamos loucos.

Limpando o gelo sobre o meu rosto, sorri, e pensei em como estávamos certos em não dar ouvidos a essas opiniões. Os escandinavos têm toda a razão: não existe frio, existem pessoas mal agasalhadas.

A Lapônia é, sim, um destino de inverno. Lindo, vasto, único. Pessoas, são poucas — não mais que duzentas mil espalhadas por milhares e milhares de quilômetros quadrados. Educadas, gentis e simples. Gente que aparenta saber o que realmente faz sentido, e não muito chegada a perder tempo com bobagens. A natureza, por outro lado, é farta — ampla, generosa, virgem. Ainda que às vezes de temperaturas hostis, gratificante para quem a encara de frente. E era isso que fazíamos ali.

Em trenós puxados por huskys animadíssimos, que pareciam alegres em simplesmente existir, cruzávamos o Torne em direção a uma pequena cabana na floresta. Naquela manhã, saímos de Jukkasjärvi, onde havíamos passado a noite no Icehotel — legal, aliás, a experiência de dormir em quarto de gelo. Legal mesmo. Mas a cabanazinha floresta adentro do outro lado do rio será para sempre a memória mais doce daquela estada no topo do mundo.

Não há recepcionista, não há porteiro, não há qualquer pessoa — a não ser Kristóf Hernyák, ou simplesmente Kris, um expatriado polaco que arruma a cama, limpa a cabana, cozinha como um francês e serve a mesa como um copeiro inglês. Achando pouco, limpa a neve da entrada, acende a lareira, abre o vinho e abastece os snowmobiles. Isso tudo com um sorriso no rosto. Está certo que outros hóspedes não haviam, éramos só Turíbio e eu. Mas ainda assim … Chegamos a perguntar se toparia se mudar para o Brasil. Pela oferta certa, sorriu Kris de volta.

A paisagem branca embalava aquelas horas, aqueles dias. Lindos, que se diga. Longe de tudo, de qualquer coisa. Nada de televisão, nem telefone. Carro, nem pensar. Sequer existia uma estrada por perto. Chegava-se de trenó, como fizemos, caminhando ou de snowmobile. Lagos congelados, campos nevados, renas, alces e, quem sabe, um eventual urso. À noite, a expectativa de avistar a aurora boreal.

Assim como uma cena do cinema, ela veio, e quando menos esperávamos — em uma noite de lua cheia. Diz-se não ser essas as noites ideais, pois muito claras. Melhor não acreditar muito no que se diz. No topo de uma montanha próxima, lá estamos nós no meio da noite, deitados na neve, olhando para o céu. Queria ainda estar ali até agora.

Mas claro que, como tudo que é especial, aquilo que é único é único porque termina. E assim alguns dias mais tarde voltamos a Jukkasjärvi, onde pegamos um carro para a nossa próxima parada. Na estrada, o equipamento de som tocava White Winter Hymnal, canção do The Fleet Foxes. A trilha perfeita para a jornada em direção ao Tree Hotel. Perto da fronteira da Suécia com a Finlândia, o estabelecimento é renomado mundialmente pela arquitetura única de cada uma de suas sete acomodações, desenhadas por sete diferentes arquitetos escandinavos.

Ainda que encantadoras, particularmente para pessoas ligadas à arquitetura e ao design contemporâneos, é a história por trás do hotel — e a paixão de Britta e Kent Lindvall, o casal proprietário — que realmente fascina.

Após iniciar a carreira como enfermeira e atuar por vinte anos na área de saúde, Britta largou tudo e se mudou para Harads, onde abriu uma pequena hospedaria — um local adorável, com atmosfera de casinha da vovó. Alguns anos mais tarde, Kent, seu marido, vindo do mundo de turismo de aventura, percebeu que apesar de charmosa, a Britta’s Guesthouse não se diferenciava de tantas outras pousadas nos arredores. E que, para se destacar, precisava oferecer algo realmente singular. Daí as casas nas árvores. Hoje, a hospedaria original serve de recepção, sala de estar e restaurante para o Tree Hotel. Próxima à porta de entrada, uma placa na fachada:

In the High North, deep inside the woods, where treetops touched the sky there is a place inspired by friendship, designed by genius, made by magic, perfect and pure.

Essas são as palavras de Clare MacCarthy, do Financial Times, sobre o Tree Hotel.

A síntese, para nós, daquelas semanas na Lapônia — uma terra que Kristóf, Britta, Kent e tantas outras pessoas que encontramos na estrada ajudaram a tornar viva, límpida, clara e quente em nossas memórias.

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