A BOA EDUCAÇÃO

novembro  |  2008


 

  •  artigo publicado na revista Class Casa — ano 03 . número 13
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A Boa Educação

Ao mesmo tempo em que tem o discernimento para pre­servar o que é bom e belo em sua história arquitetônica, a gente lisboeta parece ter o preparo de usar a sua formação para posicionar-se em relação ao presente, e para se colocar de forma segura na trajetória futura. A mesma cidade que cui­da de suas calçadas com o carinho que é reservado ao que faz parte de sua memória apresenta aos visitantes um local atual e arrojado como o Kubo, às margens do Tejo.

Situado na doca de Santos, o recém-inaugurado Kubo é um bar ao ar livre, criado especialmente para quem quer aprovei­tar os finais de tarde e as noites de verão. A casa fica aberta apenas de maio a setembro, e serve refeições ligeiras, com a brisa ribeirinha por companhia, além de ser palco para even­tos culturais diversos  —  apresentações de livros, sessões de stand-up comedy, música ao vivo  —, sempre ao final do dia.

A arquitetura é um capítulo à parte  —  minimalista, vanguardis­ta, com linhas arrojadas e a predominância da cor branca. A casa foi projetada como um barco-cenário, ancorado na noite lisboeta, e que não navega para lugar algum. Apenas desa­parece no outono, para voltar a aparecer no verão seguinte  —  está na segunda edição, e a terceira está praticamente garan­tida. E é de fato com uma aparição na noite de Lisboa que se apresenta a estrutura, projetada como o deck de um navio de luxo, que se eleva numa plataforma junto ao Tejo. Subindo-se um lance de escadas, a visão é de asfixiar  —  um espelho d’água se desdobra no limite com o rio, por entre descontraídas es­preguiçadeiras e guarda-sóis. A junção da plataforma com o rio é perfeita e, conceitualmente, é um achado: deitar-se em uma das espreguiçadeiras é como flutuar serenamente sobre o Tejo.

Mais aberto do que este bar é difícil  —  o espaço é inteiramente ao ar livre, pontilhado por cubos de luz e com uma série de velas na fronteira do horizonte. Se, por um lado, há horas em que o ventinho frio pode ser desagradável e obrigar a procura por um agasalho  —  o que é fácil, porque, sim, um funcionário do Kubo logo trará uma mantinha branca e limpa para você se enrolar —, a imagem do vento a ondular as velas refletidas na água é uma beleza indescritível.

E branco mais branco não há: é tudo branquinho, da estru­tura ao mobiliário, ao que se alia uma contínua impressão de transparência. Daí que o período ideal e mais aconselhado para sentir o Tejo ao cubo não possa deixar de ser outro se­não o entardecer / anoitecer: a casa transforma-se em um quadro vivo, em que uma espantosa paleta de cores e refle­xos vai tingindo o branco da esplanada.

Algumas peças do mobiliário são desenhadas especialmente para o projeto. Outras, como as poltronas e cadeiras, são da espanhola Gandia Blasco — must em mobiliário outdoor mo­derno —,  e fazem a farra do bom design, tirando de cena os cansados e manjados móveis em vime palhinha, tradicionais em ambientes de áreas externas.

Por falar em tradicional, é de se questionar a aceitação que teria uma casa como o Kubo se aberta em uma cida­de propensa ao tradicionalismo arcaico e ao regionalismo inconseqüente como é o Recife. Em nossa cidade, quando se fala em praia, pensa-se logo em palhoças, cadeiras de vime, palhinha. Quando não em  —  Deus nos preserve  —  Bali ou Polinésia. Alguns, certamente, torceriam o nariz para a novidade, taxando-a de árida e pouco aconchegante. Che­ga a ser morbidamente engraçada a idéia que alguns fazem de aconchego. Haja vista a oportunidade perdida na nova sede do Bargaço, às margens da Bacia do Capibaribe. Além de incrivelmente cafona e suburbano, o projeto é um crime à arquitetura original do Clube Líbano. Fala bastante sobre a falta de sofisticação  —  no sentido cosmopolita  —  de parte do que produzimos em arquitetura, e sobre o público que se pretende atingir. O que seria aquilo houvesse o partido de arquitetura sido um cruzamento do Kubo com obras de Brennand e de Nuca de Tracunhaém? O Capibaribe vai pre­cisar que se esquentem muitos assentos universitários antes de saber a resposta.

O Kubo tem a assinatura do grupo K, célebre em Portugal por casas com personalidade muito própria  —  e cujos nomes sempre começam pela letra k. Entre elas, a já fechada boate Kapital, o bar Kremlin e o deslumbrante restaurante Kais, tam­bém às margens do Tejo, pouco mais à frente.

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