MENINO DO RIO

janeiro  |  2007

 


 

  •  artigo publicado na revista Class Casa  —  ano 03  .  número 14
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Menino do Rio

À vista, não há nada em granito, em parte alguma. Pelo me­nos não nas áreas públicas, aquelas às quais os hóspedes têm acesso. Nada, nadinha mesmo. Também não há vidros azuis, metais dourados ou elementos neoclássicos. O detalha­mento arquitetônico é, na verdade, de uma simplicidade des­concertante. O primeiro projeto de Philippe Starck no Brasil contraria a cartilha de tudo o que aparentemente se pensa so­fisticado em termos de hotelaria nos estabelecimentos do ramo no Recife. E, no entanto, é podre, podre de chique. Além, muito além de qualquer coisa que Boa Viagem tenha jamais visto.

Inaugurado há pouco mais de um ano, o Fasano  —  consagra­do como um dos melhores hotéis do país desde 2003, quan­do abriu as portas de sua primeira unidade, em São Paulo —  chega a Ipanema a bordo do primeiro projeto do arquiteto franco-suíço em terras brasileiras. O endereço não poderia ser mais acertado, o número 80 da Avenida Vieira Souto. A vista  —  como, aliás, é o Rio de Janeiro para onde quer que se olhe  —  é estonteante. E o empreendimento, em termos do que se faz em arquitetura para hotéis no Brasil, e particularmente no Nordeste, é deliciosamente subversivo.

Sabe aqueles porteiros com uniformes pretenciosos  —  e um tanto rotos  —, botões dourados enfileirados no peito e suor saindo por todos os poros? Esqueça. Rapazes em charmosas bermudas, camisas de algodão e confortáveis tênis vão levar a sua bagagem por sobre um hall com piso inteiramente em madeira. Isso mesmo. Nada de granito, ou mármore. Madeira, em plena orla, e desconsiderando solenemente qualquer pre­ocupação mesquinha com a manutenção. Você fará seu che­ck in rapidamente  —  eles terão os seus dados desde o momento que a reserva foi feita —, apenas assinando a ficha de entrada, apoiada sobre uma deslumbrante tora igualmente em madei­ra, que faz às vezes de balcão, e acompanhará o rapaz de bermudas até os elevadores, envelopados em uma parede de pedra natural. Neste saguão, cada canto é milimetricamente aproveitado. Nada de desperdício de área, nada de pé-direito alto. Estamos, afinal, em um dos metros quadrados mais caros do país e, em seu projeto, Starck não os gasta com pirotecnias arquitetônicas desnecessárias. As áreas comuns são enxutas. Não há fontes, cascatas, cobertas em vidro, dourados ou ro­cocós. Há, isso sim, a elegância segura de quem sabe o que representa e o que faz.

Ainda no térreo encontram-se o Fasano Al Mare, versão ca­rioca do celebrado restaurante paulista, e o Londra, um acon­chegante lounge bar —  talvez, entre todos os ambientes do hotel, o mais destoante e personalista dos espaços. Uma ban­deira britânica preside os trabalhos etílicos, realizados ao som de rock clássico em confortáveis sofás e poltronas em couro. Uma coisa assim Pink Floyd encontra Sherlock Holmes e des­carta o ácido lisérgico pela champanhe. Shine on you crazy diamond.

Os apartamentos e suítes são 92, espalhados por sete andares. E, se nas áreas comuns o espaço é enxuto, nos aposentos dos hóspedes abre-se a mão da liberalidade na distribuição dos ambientes. Amplos e aconchegantes, os apartamentos são ao mesmo tempo despojados, elegantes, sofisticados e sub­versivos. Em muitos, a cama encontra-se em meio ao quarto, e não contra uma parede. Em outros, os banheiros são aber­tos para a área de dormir. Por todo lado, madeira, vidro e mármore, os principais materiais escolhidos por Starck, em total sintonia com a cidade e com a visão do restaurateur e hôtelier Rogério Fasano. Na escolha dos móveis, o melhor espírito do design brasileiro das décadas de 50 e 60  —  com peças de Sérgio Rodrigues e do Studio Branco & Preto  —  ao lado de várias criações das pranchetas do próprio Philippe Starck, além de poltronas e cadeiras das italianas B&B Italia, Moroso e Da Driade. Entre as criações de Starck, destaque para os descontraídos espelhos orgânicos, uma cria recente espalhada por várias suítes e apartamentos.

No oitavo andar, a economia e o comedimento no projetar chega ao ápice com a área da piscina, ao mesmo tempo simples e sofisticada, aberta para a orla de Ipanema e para o Morro dos Dois Irmãos. Mais que em qualquer outro lugar do hotel, aqui Starck realmente soube a hora de parar, e de fazer reverência ao que Rio tem de melhor  —  a sua paisagem, vista de longe, como em uma pintura. O corrimão da pisci­na é a única coisa em forma curva de que se têm notícia, em um aceno acertado que descarta as manjadas piscinas de formato orgânico. Aquelas mesmas, cheias de crianças, animadores de festa e substâncias amareladas.

O Fasano em Ipanema é talvez o único hotel de orla urbana realmente sofisticado no Brasil. Isso em um país com 8.000 quilômetros de litoral. À exceção do serviço, que  —  aliás, como em todo o Rio  —  é falho e não se iguala ao do seu hotel-ir­mão em São Paulo, é uma aula de elegância em uma cidade que já viu dias melhores nesse quesito. Talvez exatamente por isso seja ao menos curioso o fato de que foi necessária a vinda de um arquiteto estrangeiro para se achar o equi­líbrio perfeito entre cliente e profissional na elaboração do projeto. Aqui está o maior mérito do Fasano, em termos de arquitetura: o projeto é tão Philippe Starck quanto Rogério Fasano. Nem mais um, nem mais outro. Quem conhece a obra do arquiteto franco-suíço reconhece imediatamente a sua verve, a sua fleuma, a sua irreverência. Mas nem por isso o Fasano se torna um showroom do estilo Starck, o que não raro acontece em estabelecimentos no mundo inteiro. Em Ipanema, o Fasano transmite em arquitetura  —  e na mesma intensidade que deixa entrever a mão de Starck  —  a tradição, a história, os gostos e as inclinações da família Fasano. É um casamento como poucos. E de tirar o fôlego. Na tensão flutuante do Rio, pedimos para Deus protegê-lo.

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