ON - LINE

novembro  |  2007


 

  •  coluna publicada na página da internet da jornalista Daliana Martins
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On-line

Não é que eu não goste de tecnologia. E nem que seja saudosista. Adorei o meu passado  —  levando em conta alguns cortes realizados na mesa de edição da memória seletiva, dispositivo maravilhoso e altamente recomendado  —  , mas ele está muito bem lá, onde está, nas páginas dos álbuns. Atualmente, vivemos melhor do que em qualquer outra época. Não sei o que faria sem a internet. No trabalho, em casa, em viagens, quero a minha banda larga. E olha que sou dos primórdios da coisa. Mergulhei de cabeça, desde o tempo em que a gente tinha que instalar um programazinho chamado Win Trumpet no Windows 3.1 para que o modem de 4.8 pudesse discar. Em termos de internet, isso é o tempo do ronca. Estou lá desde o início. Adoro plasma, adoro LCD, adoro surround sound, adoro leitor de código de barras, e não tenho saudade alguma de televisão em preto e branco  —  e com botões  —  , de controle remoto com fio, de rádio AM e nem de carros com bancos frontais únicos. Mas odeio, detesto mesmo, celular e iPod. Coisinha chata e inconveniente que é o primeiro. Ninguém sabe ao certo como e por que usá-lo. A começar pelas próprias operadoras. Quem ama, aliás, devia é bloqueá-lo, para sempre, sob sete palmos de terra. Já o tal do iPod é burro. Burro de doer. Não sou saudosista, repito, mas eu sou do tempo dos álbuns. Os antigos LPs, com suas artes de capa maravilhosas. Do tempo em um artista gravava dez ou onze músicas amarradas por um conceito, representativas de certo momento em sua carreira, para ser ouvidas em certa ordem, e embaladas por uma concepção gráfica que o representasse. Isso é um álbum. Isso foi um LP, isso passou a ser um CD  —  uma transição que já fiz a duras custas. Não quero migrar para mp3. Não quero baixar nada na internet. Quando ouvir uma música, quero olhar a foto do encarte, quero saber o nome de todos os músicos que a gravaram, quero saber onde foi gravada, por quem foi mixada e quem a produziu. Quero analisar a sua relação com música que a precede no álbum, e com a que vem depois. Quero pegar o veículo físico com as minhas mãos e colocar de volta na caixinha. E que se dane o iPod. Imagino que ele só sirva para escutar Britney Spears e Ivete Sangalo. Quem, afinal, imaginaria que pudesse haver algum conceito por trás de seus lançamentos, ou quereria saber mais sobre as suas músicas? Que fiquem as duas lá dentro daquela maquininha com a maçã em cima. Se vierem para perto de mim, coloco-lhes mesmo uma maça na boca. Álbuns ainda existem. E, já que estamos no assunto, um da melhor estirpe acaba de ser lançado: Songs of Mass Destruction, de Annie Lennox, nas lojas desde o início de outubro. Isso sim é um álbum, essa sim é uma concepção, uma magnífica arte gráfica, e canções da melhor qualidade. Maior do que qualquer coisa que caiba em um iPod.

a bandeira

Ouvi dizer por aí que agora só quero saber de levantar a bandeira do homossexualismo. Pois quero mesmo. É isso o que eu sou, e é isso que vou defender, enquanto houver pessoas pouco esclarecidas, pouco informadas, nada cultas e de horizontes estreitos para achar que o sexo entre duas pessoas do mesmo gênero é algo condenável. Não é. Aliás, apesar de Bin Laden, de Ratzinger e de Lula, a humanidade já se mostrou capaz de feitos notáveis, e já chegamos, quem diria, a certo grau de evolução. Já deveríamos ter evoluído para além da questão do gênero. Eu não deveria mais ter que levantar bandeira alguma pelo simples motivo de que se deseja amar alguém, não importa de que gênero seja. Ora, há mais o que fazer. Mas o fato é que hoje, enquanto escrevo essas linhas, há em algum lugar adolescentes se martirizando entre os seus desejos e o que é socialmente aceito. Há pessoas casadas fantasiando o sexo com alguém do mesmo gênero, mas dormindo com pessoas do sexo oposto. Há gente idosa vivendo de forma amarga porque nunca conseguiu expressar o seu amor. Essas últimas são as mais lamentáveis. Uma existência assim é como um vôo cancelado, deprimente como a luz fluorescente em um trem vazio cortando a noite. Não a desejo para ninguém. E por isso levanto a minha bandeira. Se tive o privilégio de crescer e viver em um meio esclarecido e em que o amor está à frente de todas as coisas, acredito ser útil dividir essa sorte com outras pessoas menos afortunadas. A essas, posso dizer que o problema não está no que sentem, mas na falta de preparo de quem condena. A mesma pessoa que reprova os atos terroristas perpetrados em nome de Alá não hesita em condenar, em nome de Deus, um casal de pessoas do mesmo sexo. Há algo de errado nisso. Falta esclarecimento. A maioria condena? A maioria também prefere Ivete Sangalo a Mahler, e John Grisham a Dostoyevsky. Falta esclarecimento. Por falar em esclarecimento…

o carrinho

Durante a parada da diversidade, em setembro, na Avenida Boa Viagem, os trios elétricos passaram em frente ao futuro Parque Com Aquele Nome. Naquela ocasião, perguntaram a um funcionário da prefeitura, que ia ali em cima de um trio, se havia a consciência de que as pessoas que moram naqueles prédios, ali em volta, não desejam o parque com o projeto como proposto. A resposta foi curta e grossa: “mas vão ter que gostar”. Falta esclarecimento. Isso me lembra algo que aconteceu algumas semanas atrás, no aeroporto de São Paulo, quando embarcava para Los Angeles. Como sabem aqueles que viajam de avião, quando cruzamos para a área de embarque temos que abandonar os carrinhos no saguão do aeroporto, e carregar as nossas próprias bolsas. Tudo bem, se é norma para todos. Mas acontece que, quando Turíbio e eu passamos para a área dos portões de embarque, vi um carrinho em um canto, dando sopa, próximo a uma loja de free shop. Achei estranho, mas, como estava ali, e minha bolsa estava pesada com o laptop, peguei imediatamente, e nos pusemos a passear por entre os portões. Fomos à livraria. Daí a pouco, passados uns vinte minutos, apareceu um fiscal da Infraero  —  aquela mesmo, a infame  —  , e me perguntou se eu era alguma autoridade. Respondi que não. Ele imediatamente confiscou o carrinho, dizendo que, para além do controle de passaportes, carrinhos só para autoridades. Falta esclarecimento. Para a ministra Marta Suplicy, pode. Para mim, não. Para aquela a quem pagamos, com os nossos impostos, para trabalhar para nós, o povo, pode. Para nós, o povo, não. E vai que ela nem precisaria de carrinho, porque possivelmente a conta que pagaríamos seria aquela de um jato particular, e não de um vôo de carreira, e ela não teria que esquentar os assentos onde nos manda sentar, relaxar, e gozar. Aquela mesma, a mesma ministra. A tal a quem pagamos para nos servir, acaba por nos mandar relaxar e gozar. Ela só teria esse direito, o de dizer tal coisa, se compartilhasse com o resto do país o mesmo sufoco no aeroporto. Mas não acredito que compartilhe. E também não acredito em ato falho, força de expressão. Ainda que ela tenha dito tal coisa sem pensar no que estava dizendo, acredito que é o que realmente pensa, e que a coisa apenas aflorou de supetão. Se houve ato falho, foi do inconsciente dela. Aliás, juntando diversidade com carrinhos  —  já que Marta por muito tempo defendeu a união civil homossexual  —  houve um tempo que eu votaria em Marta. Não voto mais. Porque lhe falta esclarecimento. Assim como falta esclarecimento ao funcionário da prefeitura em cima do trio elétrico. Assim como à Infraero como um todo. Esclarecimento de que isso aqui é, sim, uma democracia. E que, em democracias, o povo elege os seus representantes e lhes outorga o poder, mas não o dá de presente, e nem para sempre. Esclarecimento de que se devem, sim, satisfações a quem paga a conta e a quem outorga o poder. De outra forma, isso aqui seria uma monarquia absolutista ou uma ditadura, e não uma democracia. Quem é eleito ali está para servir, antes que para mandar, ou para exercer o poder. O poder não caiu do céu, e vencer uma eleição não significa carta branca para fazer o que se deseje. E vamos a Los Angeles, porque por aqui nem as calçadas, e as pobres jangadinhas, deixam mais em paz.

os anjos

A Cidade dos Anjos tem uma ou duas coisas a nos ensinar sobre o que é montar a infra-estrutura para receber o visitante. Uma delas é um verdadeiro céu sobre a terra. Ou talvez um oásis sob o céu turquesa. O Mondrian, hotel em Sunset Boulevard, não tem balcões em granito, vidros azuis ou fachadas espelhadas, coisas que assolam por essas bandas. Não tem torneiras douradas, seis ou sete estrelas, nem tapete vermelho. Não tem cadeiras antigas, camas rococós nem lustres de cristal. Não tem, aliás, antiguidade alguma. E nem móveis de design, a última palavra em Milão. Talvez por isso mesmo, e por mais algumas coisinhas, é podre, podre de chique. Poucas vezes vi um projeto que dependa tão pouco de recursos materiais, de grandes verbas, e que dê, ao mesmo tempo, tanto efeito. Até nos vasos, margaridas, minhas favoritas. Que lugar agradável… Em sintonia com a cidade em que está assentado. E quem se importa se a terra pode tremer a qualquer momento, se o Big One pode sacolejar um ou dois viadutos? No terraço do Mondrian já se chegou ao céu, que trema de inveja quem não fez aquilo primeiro.

o terraço

Mas vá lá, se não se pode ir tão longe, há aqui perto ao menos um terraço tão acolhedor quanto aquele em Los Angeles. E também tão em sintonia com o local em que está inserido quanto o do hotel americano. Ele pertence a uma belga, Brigitte Anckaert. E fica em Olinda. Brigitte tem anos de experiência na cozinha de vários restaurantes do pedaço. Sua última incursão foi com o Kwetu, onde ficou até o ano passado. Acontece que Kwetu significa em casa, na língua africana swahili. Brigitte por muitos anos visitou a África. Agora, ironicamente, a belga vai mais longe ainda, abre as portas de sua própria casa, e serve, em seu terraço, jantares às sextas e sábados, e almoços aos domingos. Kwetu de verdade. A comida… Bem, a comida… Quem já provou sabe do que estou falando. Quem não conhece, que corra para conhecer. E me convide.

a telona

Não que eu tenha certeza de que vá poder ir. Tenho feito tantas coisas ao mesmo tempo, que pouco sobra para todo o resto. E é muito resto. De cinema, só sei de ouvir dizer. Eu, logo eu, que adoro salas de projeção e abomino a mera noção de home theater. Acho isso uma aberração, e uma abstração. Para se ter cinema em casa, ter-se-ia que ter uma sala com tela e projetor, e uns trezentos estranhos ao redor. Cinema, assim como teatro, é uma experiência coletiva, e contam, inclusive, os adolescentes aborrecidos e as madames ao celular. Quero rir junto, chorar junto, torcer junto. Mas, na falta de tempo, resta-me a tal da tv. Porque home theater, como disse, não existe. Então, estava eu lá zapeando, enquanto jantava, pulando de um canal para outro. Turíbio estava viajando. De repente, umas poucas cenas de um filme prendem a minha atenção. E ele estava apenas começando. Vencendo a minha resistência, acabei por assisti-lo por completo. Que filme… Chama-se Réquiem Para um Sonho, e é uma das melhores coisas que vi nos últimos anos.

off-line

E então, chega a hora de ir dormir. Tanto depois daquele filme, quanto agora. Se você me acompanhou até aqui, naninha, hora de ir para casa. Ou de desligar o computador. É difícil, eu sei. Eu também adoro internet. Já pensei até em substituir o buraco deixado pelo cordão umbilical por um cabo DSL para ver no que dá. Mas talvez não seja uma boa idéia. É muita informação. Já vi demais, ouvi demais, senti demais, sonhei demais. Já li demais, tentei demais, me acostumei demais, falhei demais. Já corri demais, caí demais, falei demais, escrevi demais. I’m sleeping with the ghosts in my machine.

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